sábado, 8 de junho de 2013

Rojo tango: um espetáculo a parte



Interior do Señor Tango: boa ambientação
Show de tango em Buenos Aires é o que não falta. Todos caros, já vou avisando. É programa de turista, por supuesto que si, mas é obrigatório. Não tem como sair da Argentina sem ver um espetáculo desses. E já que é certo de que vai ter que gastar uma boa monta, vá a um que realmente valha a pena.

No primeiro show de tango que eu fui, o Señor Tango, até que achei bacana. A casa tem uma cenografia muito interessante, o espetáculo é grandioso, com muitos bailarinos e até cavalos. Foi divertido, claro, mas me senti um pouco como se estivesse no Plataforma, com direito a uma espécie Sargentelli hermano que apresentava os shows, o que para mim soou um tanto brega. Mas tudo bem, é coisa para turista e pensei comigo: “ok, já tiquei, já vi um, já vi todos”. Engano meu.

Hall de entrada do Faena
Outra noite fomos acompanhar uma visita a um desses shows e acabamos por conhecer o Rojo Tango. Adorei. De verdade. Iria novamente, sem nenhum problema. Primeiro porque o Rojo Tango fica dentro do Faena Hotel, em Puerto Madero, e por si só o lugar já vale muito a visita. O hotel, todo de ladrilhos portenhos, é extravagantemente luxuoso, os banheiros de mármore branco do chão ao teto, espelhos venezianos, restaurantes requintados e uma piscina lindíssima, que não tem borda (é curioso ver). Segundo, porque eu, particularmente, prefiro algo mais artístico e menos circense.

Se você pensa como eu, então também vai gostar mais do Rojo Tango. Como o nome já diz, o ambiente é decorado todo em vermelho, como um cabaret antigo. Tudo muito bem cuidado e novo. O jantar (que está incluso no pacote) foi uma delícia - mais um ponto positivo porque a comida do Señor Tango não vale o preço. Servem champanhe Baron B, que é ótimo, além de bons de vinhos. No cardápio, entrada, prato principal, com excelentes opções de peixe, carne e massa, além da sobremesa. 
Show intimista onde a dança é a grande atração

O show é mais intimista e de muito bom gosto. Figurinos bem elaborados, iluminação bem cuidada, e com ótimos bailarinos e cantores, embalados por uma orquestra ao vivo de jovens músicos talentosos. A apresentação transcorre sem interferência de mediadores, como num bom filme que revive as décadas de ouro de Buenos Aires. E tudo é muito sensual e ao mesmo tempo requintado, com direito até a uma sutil dança com véus que termina com um pequeno streap tease.

Vale cada centavo cobrado. É mais caro que os demais, sim. Mas dificilmente você vai encontrar outro tão bom, tenho certeza. E como não tem nada barato mesmo, sorria e chute logo o balde.

Quem quiser economizar um pouco, tem a opção de ver somente o show, com champanhe e vinho inclusos. Faria isso se tivesse que ir ao Señor Tango novamente, mas no Rojo Tango o melhor é o pacote completo, certamente. 

Fui para casa feliz da vida, me sentindo mais privilegiada por ter visto algo realmente bom, do que como expectadora de um programa de turista obrigatório.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Para lá e para cá sem carro em BAires

Carteira de motorista só para emergências e cartão Sube,
meu companheiro de todos os dias.
 Quando vim para Buenos Aires, decidi, em acordo com meu marido, que venderíamos o nosso carro e não teríamos nenhum outro aqui. Tomamos essa decisão depois de conversarmos com algumas pessoas que estavam morando na capital argentina. Em primeiro lugar, a carteira de motorista brasileira não é válida aqui e o seguro normal não cobre sinistros ocorridos fora do território nacional e nem seguradoras locais poderiam nos cobrir. Para sua carteira valer, você precisa ter a tal Carta Verde ( é o seguro obrigatório para automóveis quando em viagem para países do Mercosul).

Até que não é difícil tirar ou validar sua carteira aqui. É burocrático, mas não é impossível (veja aqui como tirar sua carteira de motorista). E até já tirei a minha para alguma necessidade. O mais interessante, que se torna uma grande facilidade, é que, ao contrário do Brasil, na Argentina não é obrigatório entrar numa autoescola, mesmo para aqueles que terão sua habilitação pela primeira vez.

Sei de brasileiros que estão aqui dirigindo sem problemas com a tal Carta Verde, mas tem uma validade e tem que fazer a relação custo/benefício. Se muitas vezes sofremos para acionar nossas seguradoras dentro dos limites nacionais, o que dirá à distância. E o trânsito aqui também não é fácil. Não sei... Achei que seria um risco desnecessário dirigir. Então, preferi não arriscar e acreditar que poderia sobreviver sem esse conforto por dois anos. Não me arrependi, até agora. E olha que sempre tive carro e, por muitos anos, até motorista.

Buenos Aires não é Londres em questão de transporte público, mas está longe de ser o Brasil – que é caótico na questão de mobilidade urbana. Infelizmente, o ônibus aqui também é o transporte preferencial, mas não é o único. A cidade é bem servida pelo metrô, que é centenário, mas é efetivo. E, apesar dos baixos investimentos do governo nos trens, eles ainda atendem bem a cidade.

Usando o transporte público

Para os brasileiros que estão visitando a BAires, o táxi resolve todos os seus problemas. É fácil pegá-los, tem aos borbotões, e barato, se comparado com o que é cobrado no Brasil. Recebi muitos alertas sobre taxistas golpistas, mas não tive a infelicidade de me deparar com nenhum deles. Ao contrário de quando estive no Chile, onde esse problema é quase uma epidemia. No entanto, se está no aeroporto com malas, o mais indicado é que opte pelos Remis, que são táxis numerados, considerados mais seguros.

Para quem mora em Buenos Aires, tendo em vista que o transporte público é subsidiado pelo governo e, portanto, é muito barato, táxi mesmo só para ocasiões especiais. Antes de partir para ele, tente ônibus, metrô ou trem. Para saber como ir até um determinado lugar, consulte um site chamado Viaja Fácil, que mostra todas as linhas de ônibus, metrô e trens que você pode pegar, informando, inclusive, tempo de duração do deslocamento de cada meio de transporte. Tem outro que eu sempre consulto e está sempre atualizado que é da prefeitura, é o Mapa de Buenos Aires.

Antes de mais nada, adquira em qualquer agência dos Correios Argentinos (pode usar o passaporte) um cartão Sube ((Sistema Único de Boleto Electrónico). Você paga uns ARG$ 15,00 pela “tarjeta” e o carrega com a quantidade de créditos que deseja. Com ele você pode pagar ônibus, metrô e trem. Se não tiver o Sub, pegar ônibus fica problemático porque os coletivos não têm cobrador, o motorista é quem cobra a sua passagem diretamente no cartão, descontando o valor , que varia conforme o seu destino, e se você não o tiver, terá que pagar, em moedas, diretamente na maquininha. E o preço da passagem dobra. O que não quer dizer nenhum absurdo porque a passagem mais cara, com cartão Sub, vale ARG$ 2,00 (não chega a um Real!!!) e em moedas sai a ARG$ 3,50. É mais difícil ter as moedas.

A frota é bem conservada, todos os coletivos são adaptados para receber cadeirantes, mas os motoristas fizeram cursinho no Brasil e não são nada simpáticos e também queimam paradas. Outro probleminha é que não há uma boa logística de horários. Às vezes demora a passar o ônibus que você quer e quando menos espera chegam uns três, de uma vez só, para você escolher, em comboio. Vai entender...

Os ônibus aqui também lotam, mas não vai ninguém pendurado na porta e o argentino é um ótimo remédio para os caras-de-paus que ocupam os assentos reservados para idosos, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida. Você até pode sentar, mas se chegar um ocupante, não tenha dúvida que, se não ele próprio, alguém solidário vai lhe “cutucar” e pedir “carinhosamente” que se levante, se você não o fizer de livre e espontânea vontade. E nem adianta fingir que está dormindo. Os outros passageiros também não estão livres de terem seus assentos confiscados por alguém que vai pedir, em alto e bom som, se não tem alguém que ceda o lugar para alguma mãe com seu filho ou velhinho. E como tem velhinho andando de ônibus aqui! 

Música e cultura

O metrô tem a tarifa mais alta e, tirando a linha A, que foi modernizada recentemente, a maioria dos trens é bem velha, está pichada e não tem ar-condicionado. As estações são centenárias também, mas, mesmo sem grandes confortos, funciona bem e, o que é melhor, cobre boa parte da cidade, sendo uma opção rápida. Com a crise econômica é comum encontrar ambulantes nos vagões vendendo “de um tudo”. Eles entram e jogam no seu colo o produto e depois saem recolhendo o dinheiro ou o artigo de volta. Já fiz boas compras no metrô. 

Cena cotidiana: pessoas lendo no subte a caminho do trabalho
Também não será difícil que a sua viagem seja musical (veja esse vídeo, vale a pena!). É comum o vagão ser invadido por músicos dos mais diferentes estilos musicais e de grandes talentos. Mas, incrivelmente, ainda não vi em nenhum lugar da Argentina as malditas bandas pífanos peruanas, o que não deixa de ser curioso e um alívio (oh, coisinha chata...). Também é uma grande oportunidade de enriquecimento cultural porque todos aproveitam as viagens de coletivo e de metrô para ler (já estou no meu quarto livro, de março até aqui). 

Não posso falar muito dos trens porque quase não os pego. Só utilizei uma vez e para ir ao Tigre. E fui bem servida. Mas é uma linha turística e por isso não serve como referência. Dentro da capital, não os usei e os argentinos reclamam muito da falta de manutenção, o que é uma pena porque para mim ônibus nunca foi nem será transporte de massa. Mas são quatro terminais ferroviários - Retiro, Constitución, Once e Federico Lacroze - que conectam a Cidade de Buenos Aires com os subúrbios e outras cidades da Argentina.

No mais, tenho andado muito e de transporte próprio mesmo só tenho uma bicicleta. Cada um aqui em casa ganhou uma. Uso para ir ao supermercado, academia, passear e até mesmo para a aula de espanhol que é mais longe. E quer saber? Estou adorando. Entrei na onda verde, sustentável e dos sem preguiça. Morar no exterior não é sair da sua zona de conforto? Então, tá.

sábado, 11 de maio de 2013

Para curtir a dois, a três ou sei lá...


Essa semana foi o aniversário do Ricardo e quis surpreendê-lo de alguma forma. Mandei um torpedo suspeito, com apenas o endereço do local que ele teria de me encontrar no charmoso bairro de Palermo Soho. O local, de entrada muito discreta e requintada, era um restaurante afrodisíaco chamado Te Mataré Ramirez. Uma amiga minha que estava em lua-de-mel em Buenos Aires já havia me indicado certa vez e, mais recentemente, uma outra amiga ‘caliente’ me mandou uma mensagem com essa indicação. Assim, achei que o momento era mais que oportuno e fiz a reserva.

Entrada de salmão com caviar
A decoração do restaurante é toda vermelha, com muito veludo, estilo cabaré francês, com pouquíssima luz, fica quase impossível tirar fotos. Tudo lá é sugestivo, picante, até pornográfico, eu diria, mas nada de mau gosto – das pinturas na parede aos artefatos decorativos. Os nomes e as descrições dos pratos no cardápio são engraçadíssimas. Para as preliminares começamos com Turbado Por El Aroma De Su Deseo, um inocente salmão marinado e caviar, com salada temperada com um molho de mostarda de Dijón. E a arrumação do prato também é sugestiva e foi, entre o que comi, o que mais gostei. 
Para ter na adega

Para os finalmentes, o prato que escolhi chamava-se Su sexo, Orgulloso, se Inflama y Enardece, para, literalmente, me entregar ao prazer carnal de um cordeiro com purê de batata doce. Graças ao bom Deus que os pratos têm números e você não precisa entrar em intimidades com o garçom. Para beber, nos indicaram um malbec chamado Animal (ui!), da bodega Catena, que estava muito bom. Para quem não quer jantar, a casa ainda oferece open bar.

Mas o melhor mesmo são os shows eróticos. De terças a domingo, a casa apresenta uma programação cultural com apresentações cênicas, burlescas, tarô erótico, exposições de arte entre outras atrações. Para a mulherada, a casa ainda oferece oficinas de strip-tease. 


No dia que fomos, estava em cartaz a peça Rubor – Sexo al Oído. Um casal de artistas declamaram textos eróticos e pornográficos de escritores como Pietro Aretino, Sbarra, Baptiste, Quevedo, Sietecase entre outros anônimos, interagiram (com todo respeito, mas não muito) com o público e simularam, sem nem encostar um no outro, apenas com gestos, gemidos e uma verborragia obscena, o ato sexual, arrancando boas risadas de todos. As caras e bocas do ator nos fizeram lembrar um amigo que, incrivelmente, consegue encostar a ponta da língua no nariz (e aposto que você acabou de tentar!), o que nos garantiu risadas extras. Para quem não tem fluência no espanhol, é melhor procurar na agenda uma atração mais visual e menos auditiva... Calma! Ia sugerir uma apresentação de dança. 

O restaurante não é barato. Tem uma consumação mínima de quase P$ 200,00 por pessoa. Mas vale principalmente pela proposta diferenciada. Não pedimos sobremesa, mas vi que tinha uma boa variedade. Arrependi-me porque não me lembrei de visitar o banheiro. Acho que perdi de ver até onde vai a criatividade humana e de me divertir um pouco mais. Se por acaso vier a Buenos Aires e resolver seguir essa sugestão, não esqueça de me dizer se foi bom para você.



TE MATARÉ RAMIREZ - RESTAURANTE AFRODISÍACO

Gorriti 5054, Palermo SOHO
1023 - Ciudad Autónoma de Buenos Aires
Segundas a domingo a partir das 20:30
(5411) 4831-9156
amantes@tematareramirez.com

terça-feira, 23 de abril de 2013

Português, espanhol, portunhol e espanguês!


Quando comecei a dar aula de português para argentinos foi que percebi o quanto que é difícil para eles, especialmente para os portenhos, entenderem nosso português. É bem mais difícil do que é para nós entender o espanhol. Ai, quando a gente fala e eles não nos entendem pensamos que é má vontade, que eles não têm paciência. Não acredito que seja isso. Acho que eles não nos entendem mesmo. E não é por falta de esforço.

Diferente do espanhol, no português é comum a gente falar de um jeito e escreve de outro e também trocamos naturalmente os sons das letras . Por exemplo: uma palavra simples como “titio” se formos escrever como falamos seria “tchitchiu” (com exceção dos nordestinos). Falamos o “T”  igual ao som do “Ch” dos argentinos, mas em outras palavras, como em “telefone”, por exemplo, a mesma letra tem um som seco. A fonética deles não varia como a nossa, os sons são iguais sempre. Então, quando aparece o “Ch”, eles sabem que o som é “Tch”. Listo!

Mas no português não é bem assim... Nosso “L” tem som de “U” em algumas palavras, da mesma forma que o “O” também soa como “U” em outras tantas, além do nosso “E” que se traveste de “I” de vez em quando. Para você ter ideia da confusão que isso faz na cabeça deles, uma aluna demorou a entender que “esquecido” e “esquisito” são palavras diferentes, com significados distintos, simplesmente porque ela não conseguia distinguir a diferença de sons, já que nosso “s” entre vogais tem som de “z” e “z”, para os portenhos, é uma fonética impronunciável, soará sempre como nosso “ss” ou “ç”. Um outro aluno achava que tinha que falar "tchudo" ao invés de tudo. A cor marrom facilmente virou "marrão" e por ai vai.

Falamos obrigada, joia, beleza, bacana, massa, para dizer a mesma coisa, enquanto que eles se contentam com apenas um “gracias”. Respondemos com verbos e não apenas com “si” ou “no”. Se nos perguntam se queremos algo, respondemos “quero”, se perguntam se pode entrar, a resposta é “pode”. Bem mais complexo, não? Também temos o tudo, todos, todas, todo, toda, enquanto eles só têm o “todo” para tudo.

Quando cheguei aqui estranhava quando um argentino me perguntava se não preferia que falássemos em inglês. E muitos, quando vão ao Brasil, preferem usar o inglês para facilitar a comunicação. Acredite! Isso acontece. Na escola, no início, minha filha fez muito o uso da língua anglo-saxônica para fazer-se entender. Eles sabem que somos estrangeiros, mas muitos não distinguem se quer que somos brasileiros pela língua. Já me perguntaram se sou italiana, francesa e até inglesa, quando me ouviram falando português ou pelo meu “sotaque” espanhol diferente.

O que percebi, posso estar enganada, é que o argentino tem vergonha de falar o nosso idioma de forma errada e como o brasileiro, aos trancos e barrancos, também acaba entendendo o que ele fala, não arrisca, é comedido. Já o brasileiro, com a cara-de-pau que Deus lhe deu, se apropria muito facilmente do sotaque espanhol e sai por ai arrasando... A língua alheia, claro! É que o espanhol parece com o português, né? Só que não... Então, as confusões são inevitáveis.

Uma vez fui comprar empanadas e entre os variados recheios vi uma de “choclo”, perguntei o que seria, e a atendente não sabia como me explicar. Sem cerimônia, fiz imediatamente um processo de associação – “choclo” igual a “choco”, então deve ser chocolate! Perguntei se era “dulce” e ela confirmou! Era isso, acertei! Pedi logo quatro! Só que não... Choclo aqui é milho e o milho aqui é doce e eu detesto recheio de milho.

Minha filha foi dizer para sua amiga que ela era uma “gata” e a menina ficou ofendida. Imagina que além do felino, gata aqui é prostituta. A compra de uma simples camisa pode se tornar um incidente diplomático porque o nome para a peça é “remera”, mas se você falar “ramera” é um xingamento. Tenho muita dificuldade de falar o “R” deles e fui morar justamente numa rua que se chama Monrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrroêêê,.  Às vezes é um problema chegar em casa. Se não dobro o "r" eles simplesmente não entendem!

A primeira coisa que um brasileiro precisa aprender a dizer aqui é “habla despacio, por favor”, sabendo que não vai adiantar muito porque o portenho fala muito rápido e arrastado. É deles. Da mesma forma que nós também temos que entender que não é só imitar o espanhol e que precisamos pronunciar com mais clareza o nosso bom e velho português, já que estamos na terra deles. Nós também falamos rápido e arrastado para eles. Também é preciso ter muito cuidado com as palavras que parecem, mas não são. E, não menos importante, paciência! Tenha em mente que eles verdadeiramente não entendem seu "portunhol" e não são obrigados a entender! 


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Buenos Aires de Bicicleta



Este domingo o céu de Buenos Aires estava irretocável: com um azul intenso, sem nuvens, um sol brilhante, ressaltando o colorido do outono, que deixou as folhas das árvores numa escala de tons que vai do amarelo ao laranja. Nem parecia que há uma semana a cidade estava um caos após a tormenta que inundou vários bairros. E se depois da tempestade vem a bonança, aqui ela chegou acompanhada do frio. Foi como se tivessem ligado o ar-condicionado central da cidade. Clima perfeito para pedalar porque é possível andar quilômetros sem verter uma única gota de suor. Eis o segredo das bicicletas dominarem as paisagens de cidades europeias – o clima.

É verdadeiramente desestimulante pedalar com aquele calor úmido ensopando suas roupas, a não ser que seja absolutamente por prática esportiva. Buenos Aires, com seus parques imensos e bem cuidados, circulados por ciclovias recém-construídas e agora com um clima favorável, é um convite aos ciclistas de fim de semana como eu. E convite feito, é convite aceito. Estendi a proposta à milha filha e ela topou. E assim, sem muitos planos, nem estudos de trajetos, nem compromissos com horários, saímos com as nossas “bicis” para brindar o dia.

Vale dizer que nem toda Buenos Aires está com ciclovias, mas o governo iniciou um programa chamado Mejor em Bici e por meio dele é possível, com o número do passaporte, tomar emprestado bicicletas e deixa-las depois nas estações, semelhante ao que já existe no Rio. A pré-inscrição pode até ser feita no site do governo. Lá também tem um mapa das estações de bicis para download. Alguns circuitos turísticos já estão com boa infraestrutura para ciclistas.

Meu roteiro 


A primeira ideia era sair da minha casa, que está próxima ao estádio do River, e dar uma volta no Lago Regatas do Parque Belgrano, mas estava tão agradável que resolvemos explorar mais.

Fomos acompanhando a ciclovia: passamos pelo Hipódromo Argentino, pela praça Holanda, já em Palermo, e paramos um pouco no Planetário Galileo Galilei, onde estava tendo um show beneficente, em favor dos desabrigados de La Plata, distrito mais prejudicado com o último temporal.

Ficamos por ali alguns minutos, curtindo o som de bandas de roque locais e vendo a mobilização das pessoas para carregar caminhões imensos com toneladas de doações que chegavam a todo instante.

Malba: um passeio obrigatório


Em seguida, decidimos por continuar nossas pedaladas até o Malba – Fundação Costantini, ainda em Palermo. O museu, que é dedicado à arte latino-americana do século XX, é um passeio imperdível para não dizer obrigatório. O Malba foi uma ideia do milionário argentino Eduardo Constantini, que o construiu por meio da fundação que leva o seu nome.

O acervo reúne mais de 500 obras dos principais artistas modernos e contemporâneos do nosso continente, dentre as quais se destaca a tela da nossa Tarcila do Amaral, o Abaporu, considerada a obra brasileira mais valorizada no mundo, depois que Constantini a arrematou por US$ 1,5 milhão. 
Abaporu:tem lugar de destaque no Malba

Camila admirando Frida
Mas Tarcila não está só no Malba. Junto com ela estão um Di Cavalcanti e um Portinari belíssimos. Um autorretrato da Frida Kahlo, um Botero e muitas obras do Antônio Berni, das quais gosto especialmente da Manifestación, também fazem da visita ao museu um banho de cultura, desses que lavamos a alma e os olhos. 

O prédio em si já é uma obra de arte da arquitetura. Foi construído a partir de um concurso público que escolheu o melhor projeto. Todo branco, deixa sobressair o colorido das obras e os planos envidraçados ainda permitem uma luminosidade natural interna que favorece ainda mais a visibilidade.


Shopping Passeo Alcorta

Área infantil no solar
Depois da visita, já tomadas pela fome, pedalamos até o shopping Passeo Alcorta, que fica na quadra ao lado do Malba. Esse centro comercial é mais sofisticado: tem um bom mix de lojas e uma praça de alimentação muito agradável, com um solar para quem preferir desfrutar do seu almoço ao ar livre, com direito a uma vista do bairro.
O charme do Passeo Alcorta

Depois de dar uma olhada nas vitrines e da Camila entrar num surto consumista com as novidades da moda inverno, achei melhor alimentá-la rapidamente. Quando começamos a achar que precisamos de tudo que vemos, o melhor a fazer é mesmo comer. Destruímos 20 peças de sushi e sashimi e o bom senso voltou a reinar.

Reabastecidas, tomamos nosso caminho de volta para casa com o sol de fim de tarde dando outro colorido às paisagens. E chegamos bem antes do anoitecer, sem nenhum sinal de cansaço. Foi um domingo simples e perfeito. Ou seria simplesmente perfeito?

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Enlouquecendo em San Telmo

Um dos programas de domingo mais bacanas de Buenos Aires é a Feira de San Telmo. Quem já esteve em Buenos Aires, mesmo a passeio, sabe que é um roteiro clássico no turismo da cidade. E eu não poderia deixar de conferir isso de perto. A feira, que inaugurou em 1970 com apenas 30 barracas, hoje conta com 257 feirantes vendendo de prataria a brinquedos. Lá, é possível encontrar “de um tudo”, se divertir, ouvir boa música e comer bem.

Camila queria achar uns óculos ao estilo Jonh Lennon, Ricardo duvidou que lá tivesse algum. Pois bem, logo na primeira tenda encontramos o tal picinez por uns R$ 50,00. E assim, surpreendendo a todos, seguiu a nosso passeio. E o legal dessa feira é exatamente isso, achar coisas impensadas, bem mais até do que um simples óculos.


A feira ocupa a Plaza Dorrego e desce pelas ruas ao largo, Defensa, Humberto Primo, Bethlem, Aieta. O acesso é fácil é possível chegar de ônibus ou metrô, com tranquilidade. As negociações podem ser feitas em pesos, dólares e até em reais, mas sempre em espécie. Ao largo, cafés e restaurantes maravilhosos. Se puder chegar cedo, melhor, é mais tranquilo. A parte da tarde é o horário de maior concentração de pessoas, mas é mais divertido também. Então, é bom não descuidar dos pertences.

É uma tentação total para quem curte decoração, como eu. Fiquei louca com a quantidade de prataria, porcelanas e cristais. Comprei um conjunto de seis copos de cristal por $ 150,00 (dá uns R$ 40,00 mais ou menos!!!) e, não satisfeita, arrematei, por cerca de R$ 200,00, dez taças de cristal para champanhe, daquelas que foram feitas tendo como molde o seio da amante preferida do Rei Luís XV, a Marquesa Pompadour.

Aproveitei o tema champanhe e comprei uma champanheira banhada em prata por uns R$ 100,00. Foi o que dinheiro deu e o que o juízo permitiu. Mas vi verdadeiras preciosidades, como um faqueiro Christofler de 147 peças, completo, por uns R$ 5 mil (isso sem choro nenhum). E curiosidades, como uma barraquinha que vendia miniaturas de bonequinhos do Star Wars – uma perfeição para encantar os meninos.

Para comer

Para comer, o bairro oferece inúmeras opções. Escolhemos um que ficava bem em frente a praça e oferecia uma bonita vista do alto – o La Pérgula de San Telmo. Além do ambiente agradável, da comida honesta e do bom vinho que escolhemos, pudemos assistir a uma apresentação de tango e saímos bem satisfeitos.

Vinho pedido
O melhor do restaurante, no entanto, é a visão do alto que ele dá da feira. Portanto, só vale mesmo a pena se ficar na parte superior. Mas essa foi uma escolha cega. Vale a pena bater perna para eleger o lugar que mais lhe agrada. Isso também faz parte da diversão, não é mesmo?

El Afronte

As atrações culturais também são muitas e ótimas. Tango de rua, apresentações de grupos musicais de ótima qualidade. Encontramos até uma orquestra de rua com piano (sim! Um piano na rua), violinos, bandoneóns e violoncelo, chamada El Afronte. E lógico, paramos para registrar de tão encantados com o som que eles produziam. Depois, ao pesquisar, fiquei sabendo que essa orquestra foi declarada de “Patrimônio Cultural” em 2006 pela Legislação portenha e que fazem turnês pelo mundo. Mas é, elementarmente, uma orquestra de rua!

Descobri também que eles se apresentam todas as quartas-feiras na Maldita Milonga, um galpão na rua Perú, despojado, mas muito concorrido por locais e turistas e principalmente pelos mais jovens. Dá para dançar mal que ninguém vai reparar e tomar uns tragos.

Abaixo, um vídeo com algumas coisinhas que encontramos pela feira e com a trilha sonora do El Afronte.




Depois conto mais!


Anota aí!

Feira de San Telmo

Endereço: Praça Dorrego, Rua Defensa e Humberto I, San Telmo.

Linhas de ônibus: 22, 24, 28A, 28B, 29, 33, 54, 61, 62, 74, 86, 93, 126, 130, 143, 152 e 159.

Você pode chegar caminhando a partir da Plaza de Mayo, 10 blocos.

Horários: Domingos das 10 a 17 hs.



La Pergola de San Telmo

Anselmo Aieta 1075, San Telmo

Horário: 10:00 - 02:00



Maldita Milonga

Peru 571

Toda quarta-feira a partir das 21h (aula) e 23h (milonga)

Pagamentos só em dinheiro

domingo, 17 de março de 2013

Aprendendo com Los Hermanos

As aulas começaram oficialmente na Argentina na última sexta-feira (08/03), provocando engarrafamentos nos horários de entrada e saída dos alunos e colorindo as ruas com as tradicionais minissaias quadriculadas, muito usadas como uniformes em várias instituições de ensino. É a vida entrando no seu curso normal.

Alunos do Hight School em horário de almoço
Minha filha, que teve umas férias prolongadíssimas, estava cheia de expectativas com a escola nova e com os novos amigos. Pela primeira vez em 17 anos, acho que finalmente acertamos na escolha. Não que durante tantos anos ela não tenha estudado em boas escolas no Brasil, pelo contrário, foram sempre as melhores, mas em Buenos Aires as escolas apresentam, verdadeiramente, propostas pedagógicas diferenciadas que permitem que você escolha uma instituição mais adequada para cada perfil de aluno.

Na minha busca pela escola ideal para Camila, percebi que “los Hermanos” estão muito mais a frente da gente em termos de educação – pelo menos em se tratando de escolas particulares. Primeiro porque o Secundário começa muito mais cedo que o nosso Ensino Médio, apesar de ambos os países terem 12 anos de estudos escolares. Eles dividem as etapas de forma diferente, são sete anos para o Fundamental e cinco anos para o Secundário, enquanto que no Brasil temos nove anos para o Fundamental e apenas três para o Ensino Médio. Assim, o oitavo ano brasileiro corresponde ao primeiro ano do Secundário e assim por diante.

Profissionalização
Entrada do Colégio Aula XXI
Espaço interno com pinturas feitas pelos alunos
A partir desta etapa, os alunos começam a ter uma formação voltada para o mercado de trabalho. Cada escola aqui, inclusive as públicas, é obrigada a ter uma orientação definida. No Secundário, além das aulas normais, os alunos já começam a ter algumas oficinas profissionalizantes e podem terminar com uma certificação técnica. A partir disso você tem escolas com orientação voltada para gestão de empresas, tecnologia e robótica, para artes e comunicação, gastronomia, entre outras. A escola que a Camila escolheu, Colégio Aula XXI, tem oficinas de desenho e pintura, música, rádio, audiovisual, gastronomia e teatro. Dessas, ela pode escolher duas. 

As disciplinas de Física, Química têm bem menos peso no plano de estudos. A carga horária é ocupada com aulas que, a meu ver, faz muito mais sentido para os jovens, como Economia e Informática, por exemplo. Melhor do que ficar gramando em Física sem entender onde vão aplicar aquilo que eles estão engolindo. E detalhe: quando cito Informática, não estou falando de embromação. Este ano, a turma da Camila, aprenderá a trabalhar com o Photoshop – inclusive, ao final do ano, é facultado ao aluno prestar um exame para obter certificação técnica. No Brasil, mesmo tendo Informática ou Comunicação Eletrônica, os alunos saem sem saber nem os comandos básicos de uma planilha de Excel.

Além disso, em todas as escolas que visitei, também percebi que a formação em inglês também é levada muito a sério, inclusive com certificação de exames internacionais como os da Universidade de Cambridge. Funciona assim, mesmo nas escolas que não são bilíngues. Os alunos chegam a receber de 6h a 10h de aula semanais de inglês, dependendo da instituição. As turmas são divididas por níveis, como nos cursinhos no Brasil, independente do ano que o aluno esteja cursando, o que permite maior aproveitamento de todos.

Em Geografia Camila estudará cinco países americanos: Venezuela, Estados Unidos, El Salvador, Uruguai e... Brasil. E o pior é você descobrir que o único Salvador que sua filha conhecia é aquele que fica na Bahia. Também não me lembro de tê-la visto estudar no Brasil, de forma assim distinta, a Argentina. Essa visão macro das Américas é algo que deveríamos ter como lição. Ah! E aqui ainda é dada a boa e velha Moral e Cívica.


Prioridade: desenvolver o pensamento crítico
O Aula XXI é tido como um colégio menos tradicional. Os alunos não usam uniforme, afinal, vestir-se também é uma forma de expressar-se e como a escola tem orientação para comunicação, está explicado. As cadeiras também não são dispostas na sala em fileiras, em sim em círculos ou semicírculos. O que mais me estranhou foi que a escola não deu nenhuma lista de material. Com exceção da “carpeta” – um fichário com folhas pautadas e quadriculadas – e do estojo pessoal com lápis, caneta e etc, todo o resto é fornecido pela escola. Cada professor entrega ao aluno uma xérox da apostila que vai utilizar, sem custos adicionais. Xerocar livros inteiros aqui é muito normal e é difícil achar livros didáticos nas livrarias. Pelo visto argentinos desconhecem leis de direitos autorais.

A maior parte das escolas tem espaços físicos limitados e não há muita preocupação em oferecer uma mega estrutura, como é comum nas escolas particulares brasileiras. Todas as que visitei aqui, cinco no total, tinham apenas uma turma de 15 a 20 alunos para cada ano. Uma das diretoras com quem conversei ficou espantada ao saber que no Brasil a Camila frequentou escolas com três ou quatro turmas de um mesmo ano, com salas reunindo de 30 a 40 alunos. “E dá certo?”, perguntou ela. É... Dá, né?

Dificuldade na matrícula

Entrada do teatro da escola
Como são pequenas, a quantidade de vagas é bem limitada, principalmente para o Secundário. E para você ter uma ideia de como o processo de matrícula começa cedo, em abril a escola da Camila já começará o período de ingresso para 2014. Portanto, em fevereiro, quando cheguei e comecei a procurar onde iria matricular minha filha, muitos colégios já estavam lotados e não aceitavam novos alunos. Conheci filhos de outros brasileiros que ficaram sem escola.

O calendário escolar aqui é um pouco diferente do Brasil. Eles têm as férias de inverno em julho, as de verão, que vão de Dezembro até meados de Fevereiro  e alguns ainda oferecem uma semana de recesso em Setembro ou Outubro, as chamadas férias de primavera. Em Dezembro  quem ficar para recuperação só renderá exames finais depois das férias, em Fevereiro, coisa de uma a duas semana antes o início do novo ano letivo.

As documentações que você precisa ter em mãos para matricula é basicamente o histórico escolar, reconhecido pelo Ministério das Relações Exteriores, mas não precisa de tradução, pois o acordo entre os dois países dispensa essa formalidade; carteira de vacinação (inclusive para os adolescentes); e certidão de nascimento, também reconhecida pelo MRE.

Para que a Camila esteja em dia com os conteúdos exigidos pelo MEC, ela está fazendo Colégio Militar à Distância. Sim, porque nenhuma escola aqui vai garantir o volume de conteúdo que é derramado sobre os jovens de 15 a 18 anos no Ensino Médio brasileiro, o que para eles só tem uma utilidade: passar no Vestibular. Enquanto vigorar essa cultura conteudista que domina a educação secundária no Brasil, continuaremos a ter enormes índices de evasão no Ensino Médio e a formar concurseiros ao invés de prepararmos jovens para a vida. São por conta desses detalhes que continuamos 20 pontos percentuais atrás da Argentina no índice do IDH do PNUD, apesar da crise que eles vivem aqui.