terça-feira, 23 de abril de 2013

Português, espanhol, portunhol e espanguês!


Quando comecei a dar aula de português para argentinos foi que percebi o quanto que é difícil para eles, especialmente para os portenhos, entenderem nosso português. É bem mais difícil do que é para nós entender o espanhol. Ai, quando a gente fala e eles não nos entendem pensamos que é má vontade, que eles não têm paciência. Não acredito que seja isso. Acho que eles não nos entendem mesmo. E não é por falta de esforço.

Diferente do espanhol, no português é comum a gente falar de um jeito e escreve de outro e também trocamos naturalmente os sons das letras . Por exemplo: uma palavra simples como “titio” se formos escrever como falamos seria “tchitchiu” (com exceção dos nordestinos). Falamos o “T”  igual ao som do “Ch” dos argentinos, mas em outras palavras, como em “telefone”, por exemplo, a mesma letra tem um som seco. A fonética deles não varia como a nossa, os sons são iguais sempre. Então, quando aparece o “Ch”, eles sabem que o som é “Tch”. Listo!

Mas no português não é bem assim... Nosso “L” tem som de “U” em algumas palavras, da mesma forma que o “O” também soa como “U” em outras tantas, além do nosso “E” que se traveste de “I” de vez em quando. Para você ter ideia da confusão que isso faz na cabeça deles, uma aluna demorou a entender que “esquecido” e “esquisito” são palavras diferentes, com significados distintos, simplesmente porque ela não conseguia distinguir a diferença de sons, já que nosso “s” entre vogais tem som de “z” e “z”, para os portenhos, é uma fonética impronunciável, soará sempre como nosso “ss” ou “ç”. Um outro aluno achava que tinha que falar "tchudo" ao invés de tudo. A cor marrom facilmente virou "marrão" e por ai vai.

Falamos obrigada, joia, beleza, bacana, massa, para dizer a mesma coisa, enquanto que eles se contentam com apenas um “gracias”. Respondemos com verbos e não apenas com “si” ou “no”. Se nos perguntam se queremos algo, respondemos “quero”, se perguntam se pode entrar, a resposta é “pode”. Bem mais complexo, não? Também temos o tudo, todos, todas, todo, toda, enquanto eles só têm o “todo” para tudo.

Quando cheguei aqui estranhava quando um argentino me perguntava se não preferia que falássemos em inglês. E muitos, quando vão ao Brasil, preferem usar o inglês para facilitar a comunicação. Acredite! Isso acontece. Na escola, no início, minha filha fez muito o uso da língua anglo-saxônica para fazer-se entender. Eles sabem que somos estrangeiros, mas muitos não distinguem se quer que somos brasileiros pela língua. Já me perguntaram se sou italiana, francesa e até inglesa, quando me ouviram falando português ou pelo meu “sotaque” espanhol diferente.

O que percebi, posso estar enganada, é que o argentino tem vergonha de falar o nosso idioma de forma errada e como o brasileiro, aos trancos e barrancos, também acaba entendendo o que ele fala, não arrisca, é comedido. Já o brasileiro, com a cara-de-pau que Deus lhe deu, se apropria muito facilmente do sotaque espanhol e sai por ai arrasando... A língua alheia, claro! É que o espanhol parece com o português, né? Só que não... Então, as confusões são inevitáveis.

Uma vez fui comprar empanadas e entre os variados recheios vi uma de “choclo”, perguntei o que seria, e a atendente não sabia como me explicar. Sem cerimônia, fiz imediatamente um processo de associação – “choclo” igual a “choco”, então deve ser chocolate! Perguntei se era “dulce” e ela confirmou! Era isso, acertei! Pedi logo quatro! Só que não... Choclo aqui é milho e o milho aqui é doce e eu detesto recheio de milho.

Minha filha foi dizer para sua amiga que ela era uma “gata” e a menina ficou ofendida. Imagina que além do felino, gata aqui é prostituta. A compra de uma simples camisa pode se tornar um incidente diplomático porque o nome para a peça é “remera”, mas se você falar “ramera” é um xingamento. Tenho muita dificuldade de falar o “R” deles e fui morar justamente numa rua que se chama Monrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrroêêê,.  Às vezes é um problema chegar em casa. Se não dobro o "r" eles simplesmente não entendem!

A primeira coisa que um brasileiro precisa aprender a dizer aqui é “habla despacio, por favor”, sabendo que não vai adiantar muito porque o portenho fala muito rápido e arrastado. É deles. Da mesma forma que nós também temos que entender que não é só imitar o espanhol e que precisamos pronunciar com mais clareza o nosso bom e velho português, já que estamos na terra deles. Nós também falamos rápido e arrastado para eles. Também é preciso ter muito cuidado com as palavras que parecem, mas não são. E, não menos importante, paciência! Tenha em mente que eles verdadeiramente não entendem seu "portunhol" e não são obrigados a entender! 


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Buenos Aires de Bicicleta



Este domingo o céu de Buenos Aires estava irretocável: com um azul intenso, sem nuvens, um sol brilhante, ressaltando o colorido do outono, que deixou as folhas das árvores numa escala de tons que vai do amarelo ao laranja. Nem parecia que há uma semana a cidade estava um caos após a tormenta que inundou vários bairros. E se depois da tempestade vem a bonança, aqui ela chegou acompanhada do frio. Foi como se tivessem ligado o ar-condicionado central da cidade. Clima perfeito para pedalar porque é possível andar quilômetros sem verter uma única gota de suor. Eis o segredo das bicicletas dominarem as paisagens de cidades europeias – o clima.

É verdadeiramente desestimulante pedalar com aquele calor úmido ensopando suas roupas, a não ser que seja absolutamente por prática esportiva. Buenos Aires, com seus parques imensos e bem cuidados, circulados por ciclovias recém-construídas e agora com um clima favorável, é um convite aos ciclistas de fim de semana como eu. E convite feito, é convite aceito. Estendi a proposta à milha filha e ela topou. E assim, sem muitos planos, nem estudos de trajetos, nem compromissos com horários, saímos com as nossas “bicis” para brindar o dia.

Vale dizer que nem toda Buenos Aires está com ciclovias, mas o governo iniciou um programa chamado Mejor em Bici e por meio dele é possível, com o número do passaporte, tomar emprestado bicicletas e deixa-las depois nas estações, semelhante ao que já existe no Rio. A pré-inscrição pode até ser feita no site do governo. Lá também tem um mapa das estações de bicis para download. Alguns circuitos turísticos já estão com boa infraestrutura para ciclistas.

Meu roteiro 


A primeira ideia era sair da minha casa, que está próxima ao estádio do River, e dar uma volta no Lago Regatas do Parque Belgrano, mas estava tão agradável que resolvemos explorar mais.

Fomos acompanhando a ciclovia: passamos pelo Hipódromo Argentino, pela praça Holanda, já em Palermo, e paramos um pouco no Planetário Galileo Galilei, onde estava tendo um show beneficente, em favor dos desabrigados de La Plata, distrito mais prejudicado com o último temporal.

Ficamos por ali alguns minutos, curtindo o som de bandas de roque locais e vendo a mobilização das pessoas para carregar caminhões imensos com toneladas de doações que chegavam a todo instante.

Malba: um passeio obrigatório


Em seguida, decidimos por continuar nossas pedaladas até o Malba – Fundação Costantini, ainda em Palermo. O museu, que é dedicado à arte latino-americana do século XX, é um passeio imperdível para não dizer obrigatório. O Malba foi uma ideia do milionário argentino Eduardo Constantini, que o construiu por meio da fundação que leva o seu nome.

O acervo reúne mais de 500 obras dos principais artistas modernos e contemporâneos do nosso continente, dentre as quais se destaca a tela da nossa Tarcila do Amaral, o Abaporu, considerada a obra brasileira mais valorizada no mundo, depois que Constantini a arrematou por US$ 1,5 milhão. 
Abaporu:tem lugar de destaque no Malba

Camila admirando Frida
Mas Tarcila não está só no Malba. Junto com ela estão um Di Cavalcanti e um Portinari belíssimos. Um autorretrato da Frida Kahlo, um Botero e muitas obras do Antônio Berni, das quais gosto especialmente da Manifestación, também fazem da visita ao museu um banho de cultura, desses que lavamos a alma e os olhos. 

O prédio em si já é uma obra de arte da arquitetura. Foi construído a partir de um concurso público que escolheu o melhor projeto. Todo branco, deixa sobressair o colorido das obras e os planos envidraçados ainda permitem uma luminosidade natural interna que favorece ainda mais a visibilidade.


Shopping Passeo Alcorta

Área infantil no solar
Depois da visita, já tomadas pela fome, pedalamos até o shopping Passeo Alcorta, que fica na quadra ao lado do Malba. Esse centro comercial é mais sofisticado: tem um bom mix de lojas e uma praça de alimentação muito agradável, com um solar para quem preferir desfrutar do seu almoço ao ar livre, com direito a uma vista do bairro.
O charme do Passeo Alcorta

Depois de dar uma olhada nas vitrines e da Camila entrar num surto consumista com as novidades da moda inverno, achei melhor alimentá-la rapidamente. Quando começamos a achar que precisamos de tudo que vemos, o melhor a fazer é mesmo comer. Destruímos 20 peças de sushi e sashimi e o bom senso voltou a reinar.

Reabastecidas, tomamos nosso caminho de volta para casa com o sol de fim de tarde dando outro colorido às paisagens. E chegamos bem antes do anoitecer, sem nenhum sinal de cansaço. Foi um domingo simples e perfeito. Ou seria simplesmente perfeito?

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Enlouquecendo em San Telmo

Um dos programas de domingo mais bacanas de Buenos Aires é a Feira de San Telmo. Quem já esteve em Buenos Aires, mesmo a passeio, sabe que é um roteiro clássico no turismo da cidade. E eu não poderia deixar de conferir isso de perto. A feira, que inaugurou em 1970 com apenas 30 barracas, hoje conta com 257 feirantes vendendo de prataria a brinquedos. Lá, é possível encontrar “de um tudo”, se divertir, ouvir boa música e comer bem.

Camila queria achar uns óculos ao estilo Jonh Lennon, Ricardo duvidou que lá tivesse algum. Pois bem, logo na primeira tenda encontramos o tal picinez por uns R$ 50,00. E assim, surpreendendo a todos, seguiu a nosso passeio. E o legal dessa feira é exatamente isso, achar coisas impensadas, bem mais até do que um simples óculos.


A feira ocupa a Plaza Dorrego e desce pelas ruas ao largo, Defensa, Humberto Primo, Bethlem, Aieta. O acesso é fácil é possível chegar de ônibus ou metrô, com tranquilidade. As negociações podem ser feitas em pesos, dólares e até em reais, mas sempre em espécie. Ao largo, cafés e restaurantes maravilhosos. Se puder chegar cedo, melhor, é mais tranquilo. A parte da tarde é o horário de maior concentração de pessoas, mas é mais divertido também. Então, é bom não descuidar dos pertences.

É uma tentação total para quem curte decoração, como eu. Fiquei louca com a quantidade de prataria, porcelanas e cristais. Comprei um conjunto de seis copos de cristal por $ 150,00 (dá uns R$ 40,00 mais ou menos!!!) e, não satisfeita, arrematei, por cerca de R$ 200,00, dez taças de cristal para champanhe, daquelas que foram feitas tendo como molde o seio da amante preferida do Rei Luís XV, a Marquesa Pompadour.

Aproveitei o tema champanhe e comprei uma champanheira banhada em prata por uns R$ 100,00. Foi o que dinheiro deu e o que o juízo permitiu. Mas vi verdadeiras preciosidades, como um faqueiro Christofler de 147 peças, completo, por uns R$ 5 mil (isso sem choro nenhum). E curiosidades, como uma barraquinha que vendia miniaturas de bonequinhos do Star Wars – uma perfeição para encantar os meninos.

Para comer

Para comer, o bairro oferece inúmeras opções. Escolhemos um que ficava bem em frente a praça e oferecia uma bonita vista do alto – o La Pérgula de San Telmo. Além do ambiente agradável, da comida honesta e do bom vinho que escolhemos, pudemos assistir a uma apresentação de tango e saímos bem satisfeitos.

Vinho pedido
O melhor do restaurante, no entanto, é a visão do alto que ele dá da feira. Portanto, só vale mesmo a pena se ficar na parte superior. Mas essa foi uma escolha cega. Vale a pena bater perna para eleger o lugar que mais lhe agrada. Isso também faz parte da diversão, não é mesmo?

El Afronte

As atrações culturais também são muitas e ótimas. Tango de rua, apresentações de grupos musicais de ótima qualidade. Encontramos até uma orquestra de rua com piano (sim! Um piano na rua), violinos, bandoneóns e violoncelo, chamada El Afronte. E lógico, paramos para registrar de tão encantados com o som que eles produziam. Depois, ao pesquisar, fiquei sabendo que essa orquestra foi declarada de “Patrimônio Cultural” em 2006 pela Legislação portenha e que fazem turnês pelo mundo. Mas é, elementarmente, uma orquestra de rua!

Descobri também que eles se apresentam todas as quartas-feiras na Maldita Milonga, um galpão na rua Perú, despojado, mas muito concorrido por locais e turistas e principalmente pelos mais jovens. Dá para dançar mal que ninguém vai reparar e tomar uns tragos.

Abaixo, um vídeo com algumas coisinhas que encontramos pela feira e com a trilha sonora do El Afronte.




Depois conto mais!


Anota aí!

Feira de San Telmo

Endereço: Praça Dorrego, Rua Defensa e Humberto I, San Telmo.

Linhas de ônibus: 22, 24, 28A, 28B, 29, 33, 54, 61, 62, 74, 86, 93, 126, 130, 143, 152 e 159.

Você pode chegar caminhando a partir da Plaza de Mayo, 10 blocos.

Horários: Domingos das 10 a 17 hs.



La Pergola de San Telmo

Anselmo Aieta 1075, San Telmo

Horário: 10:00 - 02:00



Maldita Milonga

Peru 571

Toda quarta-feira a partir das 21h (aula) e 23h (milonga)

Pagamentos só em dinheiro

domingo, 17 de março de 2013

Aprendendo com Los Hermanos

As aulas começaram oficialmente na Argentina na última sexta-feira (08/03), provocando engarrafamentos nos horários de entrada e saída dos alunos e colorindo as ruas com as tradicionais minissaias quadriculadas, muito usadas como uniformes em várias instituições de ensino. É a vida entrando no seu curso normal.

Alunos do Hight School em horário de almoço
Minha filha, que teve umas férias prolongadíssimas, estava cheia de expectativas com a escola nova e com os novos amigos. Pela primeira vez em 17 anos, acho que finalmente acertamos na escolha. Não que durante tantos anos ela não tenha estudado em boas escolas no Brasil, pelo contrário, foram sempre as melhores, mas em Buenos Aires as escolas apresentam, verdadeiramente, propostas pedagógicas diferenciadas que permitem que você escolha uma instituição mais adequada para cada perfil de aluno.

Na minha busca pela escola ideal para Camila, percebi que “los Hermanos” estão muito mais a frente da gente em termos de educação – pelo menos em se tratando de escolas particulares. Primeiro porque o Secundário começa muito mais cedo que o nosso Ensino Médio, apesar de ambos os países terem 12 anos de estudos escolares. Eles dividem as etapas de forma diferente, são sete anos para o Fundamental e cinco anos para o Secundário, enquanto que no Brasil temos nove anos para o Fundamental e apenas três para o Ensino Médio. Assim, o oitavo ano brasileiro corresponde ao primeiro ano do Secundário e assim por diante.

Profissionalização
Entrada do Colégio Aula XXI
Espaço interno com pinturas feitas pelos alunos
A partir desta etapa, os alunos começam a ter uma formação voltada para o mercado de trabalho. Cada escola aqui, inclusive as públicas, é obrigada a ter uma orientação definida. No Secundário, além das aulas normais, os alunos já começam a ter algumas oficinas profissionalizantes e podem terminar com uma certificação técnica. A partir disso você tem escolas com orientação voltada para gestão de empresas, tecnologia e robótica, para artes e comunicação, gastronomia, entre outras. A escola que a Camila escolheu, Colégio Aula XXI, tem oficinas de desenho e pintura, música, rádio, audiovisual, gastronomia e teatro. Dessas, ela pode escolher duas. 

As disciplinas de Física, Química têm bem menos peso no plano de estudos. A carga horária é ocupada com aulas que, a meu ver, faz muito mais sentido para os jovens, como Economia e Informática, por exemplo. Melhor do que ficar gramando em Física sem entender onde vão aplicar aquilo que eles estão engolindo. E detalhe: quando cito Informática, não estou falando de embromação. Este ano, a turma da Camila, aprenderá a trabalhar com o Photoshop – inclusive, ao final do ano, é facultado ao aluno prestar um exame para obter certificação técnica. No Brasil, mesmo tendo Informática ou Comunicação Eletrônica, os alunos saem sem saber nem os comandos básicos de uma planilha de Excel.

Além disso, em todas as escolas que visitei, também percebi que a formação em inglês também é levada muito a sério, inclusive com certificação de exames internacionais como os da Universidade de Cambridge. Funciona assim, mesmo nas escolas que não são bilíngues. Os alunos chegam a receber de 6h a 10h de aula semanais de inglês, dependendo da instituição. As turmas são divididas por níveis, como nos cursinhos no Brasil, independente do ano que o aluno esteja cursando, o que permite maior aproveitamento de todos.

Em Geografia Camila estudará cinco países americanos: Venezuela, Estados Unidos, El Salvador, Uruguai e... Brasil. E o pior é você descobrir que o único Salvador que sua filha conhecia é aquele que fica na Bahia. Também não me lembro de tê-la visto estudar no Brasil, de forma assim distinta, a Argentina. Essa visão macro das Américas é algo que deveríamos ter como lição. Ah! E aqui ainda é dada a boa e velha Moral e Cívica.


Prioridade: desenvolver o pensamento crítico
O Aula XXI é tido como um colégio menos tradicional. Os alunos não usam uniforme, afinal, vestir-se também é uma forma de expressar-se e como a escola tem orientação para comunicação, está explicado. As cadeiras também não são dispostas na sala em fileiras, em sim em círculos ou semicírculos. O que mais me estranhou foi que a escola não deu nenhuma lista de material. Com exceção da “carpeta” – um fichário com folhas pautadas e quadriculadas – e do estojo pessoal com lápis, caneta e etc, todo o resto é fornecido pela escola. Cada professor entrega ao aluno uma xérox da apostila que vai utilizar, sem custos adicionais. Xerocar livros inteiros aqui é muito normal e é difícil achar livros didáticos nas livrarias. Pelo visto argentinos desconhecem leis de direitos autorais.

A maior parte das escolas tem espaços físicos limitados e não há muita preocupação em oferecer uma mega estrutura, como é comum nas escolas particulares brasileiras. Todas as que visitei aqui, cinco no total, tinham apenas uma turma de 15 a 20 alunos para cada ano. Uma das diretoras com quem conversei ficou espantada ao saber que no Brasil a Camila frequentou escolas com três ou quatro turmas de um mesmo ano, com salas reunindo de 30 a 40 alunos. “E dá certo?”, perguntou ela. É... Dá, né?

Dificuldade na matrícula

Entrada do teatro da escola
Como são pequenas, a quantidade de vagas é bem limitada, principalmente para o Secundário. E para você ter uma ideia de como o processo de matrícula começa cedo, em abril a escola da Camila já começará o período de ingresso para 2014. Portanto, em fevereiro, quando cheguei e comecei a procurar onde iria matricular minha filha, muitos colégios já estavam lotados e não aceitavam novos alunos. Conheci filhos de outros brasileiros que ficaram sem escola.

O calendário escolar aqui é um pouco diferente do Brasil. Eles têm as férias de inverno em julho, as de verão, que vão de Dezembro até meados de Fevereiro  e alguns ainda oferecem uma semana de recesso em Setembro ou Outubro, as chamadas férias de primavera. Em Dezembro  quem ficar para recuperação só renderá exames finais depois das férias, em Fevereiro, coisa de uma a duas semana antes o início do novo ano letivo.

As documentações que você precisa ter em mãos para matricula é basicamente o histórico escolar, reconhecido pelo Ministério das Relações Exteriores, mas não precisa de tradução, pois o acordo entre os dois países dispensa essa formalidade; carteira de vacinação (inclusive para os adolescentes); e certidão de nascimento, também reconhecida pelo MRE.

Para que a Camila esteja em dia com os conteúdos exigidos pelo MEC, ela está fazendo Colégio Militar à Distância. Sim, porque nenhuma escola aqui vai garantir o volume de conteúdo que é derramado sobre os jovens de 15 a 18 anos no Ensino Médio brasileiro, o que para eles só tem uma utilidade: passar no Vestibular. Enquanto vigorar essa cultura conteudista que domina a educação secundária no Brasil, continuaremos a ter enormes índices de evasão no Ensino Médio e a formar concurseiros ao invés de prepararmos jovens para a vida. São por conta desses detalhes que continuamos 20 pontos percentuais atrás da Argentina no índice do IDH do PNUD, apesar da crise que eles vivem aqui.

sábado, 2 de março de 2013

Particularidades Bonairenses

Dizem que no Brasil o ano só começa depois do Carnaval. Mas em Buenos Aires é diferente... Aqui demora um pouquinho mais. Os portenhos levam as férias de verão muito a sério e gente que, por exemplo, é autônomo, não pensa duas vezes: arruma as malas e se manda para Punta Del Leste, Brasil ou vai para a Patagônia, fugir do calor do cão que faz em janeiro e fevereiro.

Tentei insistentemente procurar escolas para meus filhos em fevereiro, o que no Brasil seria natural, mas aqui nenhuma abre antes do Carnaval. Nem mesmo a secretaria para matricular novos alunos. Até o faz-tudo e o jardineiro que prestam serviço aqui no prédio também estavam a meia carga.

Plaza Holanda: rosas predominam na área do passeio
Os que ficam aproveitam ao máximo os parques, que são muitos e bem cuidados, espalhados pela cidade. Levam sua canga, seu patins, sua “bici”, seu livro predileto, seu cachorro, algum lanchinho e seu chimarrão. Igualmente aos sulistas, aqui a erva mate domina as prateleiras dos supermercados. Tem mais opção do que café. Com cuia e garrafa térmica em mãos, estiram-se sob a grama e passam a tarde como lagartixas. Acho isso uma delícia.

E uma curiosidade ocasionada pelas mudanças climáticas: os portenhos não estão preparados para as ondas de calor que tiveram neste verão. Os ar-condicionados locais ou não são bem dimensionados para os ambientes ou são velhos e não funcionam bem. Já sai irritada de um restaurante porque simplesmente me recuso a pagar para ficar desconfortável.

Dias intermináveis

Tradição: chá da tarde do La Biela
Logo quando cheguei também sofri um pouco para me acostumar com os horários. Apesar de não ter diferença de fuso em relação ao Brasil, tirando o horário de verão que aqui não existe, o dia parece interminável. Só começa a escurecer às 20h e você acaba achando que é cedo sem ser. Com isso meus horários de café, almoço e jantar ficaram todos atrapalhados. E logicamente, o sono também.

Estava jantando coisa de 22h e por consequência, vinha a insônia pela falta de costume. Mas o engraçado é que para os padrões bonairenses isso é cedo. Os restaurantes, de maneira geral, só começam a abrir suas portas lá pelas 20h e o povo começa mesmo a lotar os bares depois da meia-noite – argentino é notívago.

Como os americanos, aqui o desayuno é a principal refeição do dia. Mas vale um brunch caprichado que um almoço. Dos ingleses, apesar das desavenças históricas, herdaram o interesse pelo chá da tarde. Feijão aqui só se for o do conto de fadas do João. Não achei em nenhum dos supermercados da redondeza. A panela de pressão foi fácil, tem em todo lugar, mas o precioso grão, quem achar me avisa.

Hermanos amáveis

Uma coisa que chamou a minha atenção foi como os argentinos fumam – do mais velho aos mais jovens. Os cigarros apresentam as mesmas propagandas antitabagismo que temos no Brasil, mas são ignoradas solenemente. Uma pena!

Show de tango de rua na Plkaza Intendente Alvear
Agora é preciso fazer justiça aos Hermanos. São muito educados e prestativos. Passam informações corretas e precisas, querem te ajudar como for possível. São tão didáticos nas explicações e recomendações que, alguma vezes, dá a impressão que nos acham obtusos. Meu apartamento estava cheio de avisos pregado nas paredes, alguns úteis e outros óbvios tais como: “não jogue algodões nem papéis na descarga para não entupir”, entre outras.

Tem um senhor que passeia com sua cachorrinha no parque no mesmo horário que eu e sem saber nada a meu respeito, depois de trocarmos poucas palavras, me emprestou livros e mandou posteres de cinema de presente para minha filha. Aliás, ter um cachorro aqui é uma ótima forma de socialização.

Mesmo amáveis, são econômicos nos cumprimentos. Beijinho aqui, só de um lado do rosto. Até me acostumar, vou ficar no vácuo ainda por algum tempo. São comedidos, mas são democráticos, e o cumprimento carinhoso também serve entre homens.

Agora começam as águas de março e os dias ensolarados de um momento para o outro dão espaço para as nuvens carregadas e tormentas. A temperatura já está um pouco mais amena e aos poucos os argentinos vão voltando para a rotina. Para mim, por enquanto, tudo ainda é festa.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Milanesa para todos os gostos

Club de la Milanesa de Belgrano
Diga uma coisa que argentino adora? Errou quem respondeu churrasco. Tudo bem que as parrillas argentinas conquistaram fama internacional e existem milhões de restaurantes especializados na área espalhados por Buenos Aires. Mas não é a comida do dia-a-dia dos portenhos. O que eles amam mesmo, como nosso arroz com feijão, é o bife à milanesa! 


Milanesa com gruyere
Em qualquer restaurante – do fino a mais insignificante birosca – tem bife à milanesa no cardápio. Tem até restaurante especializado nessa iguaria de origem italiana. O Club de la Milanesa é o mais conhecido e tem um bem ao lado da minha casa.

Lá, eles servem inúmeras variações da milanesa – com queijo gruyere, cheddar, fondue, napolitana, à cavala, etc. Você pode combinar seu bife, que pode ser de carne, frango ou soja, com papas fritas ou rústicas (para quem não sabe, a palavra ‘batata’ aqui não se refere à inglesa e sim a doce), purê e outras ‘coisitas más’.

Você também pode pedir sanduíches com as milanesas. E tudo é muito bem servido, podendo ser dividido por duas pessoas tranquilamente. Minha única ressalva vai para o serviço de entrega a domicílio. Da última vez chegou frio, e milanesa fria ninguém merece. Então, o melhor é comer in loco.


Se preferir fazer sua milanesa em casa, não há problema. Os supermercados oferecem os bifes já prontos e quentinhos, para você comer como quiser, ou ainda um grande número de produtos para facilitar sua vida, como a mistura para empanar já pronta, por exemplo. Nos açougues é possível encontrar os bifes já empanados para fritar. Fica à seu critério.

Então, quando passar por Buenos Aires troque, pelo menos uma vez, a tradicional parrilla pela boa e velha milanesa e você não se arrependerá. Um argentino que se prese sabe fazer uma boa milanesa.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hasta la vista, Fábio!


Fábio no Aeroporque, voltando para o Brasil
Ainda lembro do que senti no dia que testemunhei o meu filho Fábio, com seus cinco ou seis anos, dar suas primeiras pedaladas na bicicleta sem rodinhas. Foi uma emoção indescritível vê-lo guiar firme até o pai, depois de muito cair e de vencer o medo de andar sem proteção. Recordo que segurei a bicicleta pelo selim e disse a ele que seguisse sem olhar para trás que eu iria segurar, mas logo nas primeiras pedaladas, quando senti que tinha adquirido equilíbrio, o larguei e mantive o incentivo. Ao perceber que estava só, ele ganhou confiança em si e seguiu adiante. Afinal, não tinha escolha.

Jantar de despedida
Ao deixar meu filho, hoje já com seus quase 19 anos, no Aeroparque de Buenos Aires para regressar ao Brasil, tive a mesma sensação. Depois de passar duas semanas conosco na capital argentina e de ver suas opções por aqui, ele decidiu que o melhor seria retornar ao Brasil e terminar os estudos para não se atrasar ainda mais. Assim como fiz quando criança, mantive o incentivo e o soltei. E lá foi ele, sozinho. Desta vez por opção própria.

Uma vida de muitas mudanças como é a minha realmente não favorece os filhos, principalmente quando estão na reta final para entrar no ensino universitário. Relutei bastante em deixa-lo no Brasil, longe dos meus olhos, e o trouxe comigo para que estudasse por aqui porque pensei que seria uma boa experiência. Ledo engano... A grande experiência ele começará a viver agora, por conta própria, em São Paulo, na casa do tio.

Estar numa cidade diferente, tendo que administrar o pouco dinheiro que recebe e sem ter o conforto do pai e da mãe, o obrigará a encontrar seus próprios métodos, fazer suas escolhas. Claro que está tendo a grande ajuda do tio, mas longe do olhar e também da pressão maternal, o movimento passa a ser totalmente de responsabilidade dele. É que mesmo sem querer, acabamos decidindo por nossos filhos e os acomodando.

O vinho escolhido para selar o momento: muy bueno!
Enquanto estamos segurando pelo selim, eles caem, desequilibram, fazem corpo mole. Quando se veem sós, sem as tais rodinhas, parecem que apuram o foco, seguem em frente, sem olhar para trás porque se caírem, só o chão lhes resta.

Risoto com queijo azul foi o prato escolhido
Está é a primeira vez que me separo de um dos meus filhos. Para mim, agora, sempre faltará um prato à mesa, alguém para acordar de manhã repetidas vezes, para mandar descer com os cachorros. Faltarão os olhos (lindos!) que reviram quando contrariados. A casa estará um pouco menos bagunçada e sobrará um quarto. Mas essa sensação de vazio aos poucos dará lugar a uma saudade sossegada. Tranquiliza-me saber que ele está conquistando seus objetivos, está crescendo. O principal eu lhe dei e ele levará sempre consigo: a educação, que o tornou a pessoa incrível que é, e o meu amor incondicional.

Vou aguardá-lo nas próximas férias. Até lá, colecionarei lugares e coisas que gostaria de mostrá-lo porque ele pode não está aqui fisicamente, mas sua presença é uma constante em meus pensamentos.