sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Está pensando em viajar para a Argentina?

Então é bom atentar para alguns detalhes. Eu já falei sobre esses pontos em diferentes posts, mas serei um pouco mais didática para não ter que ficar repetindo as mesmas coisas para todo mundo. Assim, aqui vai um miniguia de sobrevivência para os primeiros momentos de sua viagem com as dúvidas mais frequente que recebemos.

Câmbio


O país está passando por uma crise econômica muito atípica que poderíamos chama-la de “parece, mas não é”. O governo divulga números oficiais que não condizem com a realidade e isso afeta diretamente a política cambial.

Como o governo está constantemente intervindo no câmbio e faz coisas que fariam Adam Smith vestir a cueca pela cabeça, é bom verificar constantemente a cotação do Dólar Blue se não quiser perder dinheiro. E o que é isso? É o dólar paralelo. A defasagem entre o Blue e o paralelo já chegou a mais de 60%. Para facilitar, siga este link que dá as cotações sempre atualizadas. http://www.valordolarblue.com.ar

Então, nada de cambiar no Brasil porque, claro, vai pagar o câmbio oficial. Traga dinheiro em espécie, de preferência em dólares. Procurem não fazer uso de cartão de crédito internacional durante sua viagem, pois você gastará muito mais justamente por conta dessa defasagem. Lembre-se que as compras feitas no cartão terão seu valor convertido sempre pelo oficial e mais IOF. Então, organize-se para trazer o dinheiro que vai gastar em dólar para cambiar no paralelo aqui.

Trazer em pesos só o suficiente para o deslocamento do aeroporto até o seu destino. Em geral, 80% das lojas aceitam dólares ou reais. Mas em 60% o cambio é desfavorável em relação as casas de cambio, então é preciso ficar atento à cotação.

Os cartões de débito internacional, tipo Money Card, que são carregados em dólares só são úteis para compras no Free Shop. As lojas não costumam aceita-los. Não são indicados para retirada de dinheiro nos caixas eletrônicos. Os caixas vão lhe pagar em pesos e fazer a conversão pelo dólar oficial.

E por favor, cuidado quando for cambiar. Não aconselho ir na conversa daqueles doleiros que ficam aos montes na Calle Florida oferecendo cambio. Você pode receber notas falsas e sair no preju. Vá numa casa de câmbio estabelecida, direitinho. Para saber mais um pouquinho dê uma olhadinha no post O câmbio que o vento levou...

Saindo do aeroporto

São dois aeroportos: o Aeroporto Internacional de Ezeiza, que fica afastado da capital uns 40 quilômetros, e o Aeroparque que é o Santos Dumont de Buenos Aires. Quando comprar a passagem leve isso em consideração porque um táxi comum do Ezeiza até a cidade custa em torno de uns AR$200,00 enquanto que no Aeroparque você vai gastar em torno de 60,00. Então verifique se a diferença de preço da passagem compensa esse gasto.

Táxis
Alguns cuidados devem ser tomados com os taxistas, caso seja essa a sua opção de transporte. Se estiver com pesos, preste atenção ao entregar notas de 100 ou 50 pesos ao condutor, pois existe a possibilidade de ele substituir a sua nota por uma outra falsa e dizer que você a entregou. Um golpe básico, muita gente disse que já caiu, mas eu, francamente, nunca tive essa infelicidade. Em Buenos Aires não, mas no Chile sim!

Para resolver esse problema duas coisas podem ser feitas - mostrar a nota contra a luz na frente dele, de forma a evidenciar a marca d´água ou decorar o número de serie da nota e caso ele aplique o golpe peça que ele te devolva a nota com aquele numero de serie. Caso ele recuse, peça então para que ele chame a polícia. Jamais aceite a nota de volta, pois muito provavelmente ele a terá substituído por uma nota falsa e ficado com sua.

O pior golpe é do taxímetro adulterado. Já peguei um assim uma única vez. Se não quiser ter nenhum problema dessa natureza, o melhor a fazer é pegar um Remís, que é um táxi numerado, mais seguro e mais caro. Mas eu reforço que não tenho tido problemas com os táxis convencionais.

Ônibus


Para pegar ônibus é preciso ter moedas ou o cartão Sube. Os ônibus não têm cobradores e o pagamento é automatizado e as caixas automáticas só aceitam moedinhas. Então fica difícil para quem está chegando de viagem utilizar esse meio de transporte. Mas se quiser, entre no site http://mapa.buenosaires.gob.ar/ coloque seu destino de origem e para onde vai e veja qual linha utilizar. Veja também o post Pra lá e para cá sem carro em Buenos Aires.

Acho que coloquei todo o necessário, mas se tiver mais alguma dúvida, comente esse post que vou tentando responder.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Lujan, Temaikén e Zoo de BAires: a vida selvagem na Argentina

Confesso que adoro um zoológico. Mesmo, algumas vezes, penalizada por estarem presos e não no seu habitat natural, adoro admirá-los, conhecer seus hábitos. É coisa que vem lá da minha infância, dos livros sobre curiosidades animais que meu pai me dava para ler e dos incansáveis passeios aos jardins zoológicos que íamos sempre, em todos os lugares que visitávamos. É, sou da época que circo tinha animal e que todo mundo queria ver o show do domador (céus! Éramos quase bárbaros!).

Zoo de Buenos Aires: fácil acesso 
Portanto, esteja onde estiver, se tem zoológico, eu vou conhecer. E a Argentina tem muitos, para todos os gostos. Em Buenos Aires há o zoológico da cidade, na Avenida El Libertador, em frente ao Monumento aos Espanhóis, que estende até a Plaza Itália, podendo ingressar pelos dois lados. É um bom passeio para as crianças, que podem dar ração aos veadinhos e afins. Tem quase todos os big fives – elefante, rinoceronte, leão, leopardo (não me lembro de ter visto o búfalo) – viveiros de aves e um aquário com shows de lobos marinhos, que você precisa pagar a parte se quiser ver.

É bacana, de uma maneira geral está bem cuidado, é central, facilzinho de ir, bem no coração de Palermo. No entanto não tem nada de muito diferente dos zoológicos espalhados por ai. Mas se está procurando por uma experiência única no mundo animal, vai ter que sair da cidade.

Lujan: cara a cara com as feras

Ataque à minha inocente bolsa
Ali mesmo, na Plaza Itália, você pode pegar o coletivo 57 que vai te levar até o Zoológico de Lujan. Ai, sim você estará no caminho certo para sua aventura. Se preferir um pouco mais de conforto, opte por uma das vans que saem do centro, perto do Obelisco. Nesse caso, tem que fazer uma reserva por telefone (02323-436304 ou 02323-430372). A viagem demora, mais ou menos, uma hora.

Não vou entrar em polêmicas protecionistas dos animais, mas o fato é que neste zoológico você terá a oportunidade de entrar nas jaulas dos bichos. E não estou falando dos veadinhos e afins inofensivos. Estou falando dos leões, filhotes e adultos, e dos tigres, o que inclui um lindo, todo branco!
Eu e meu irmão com o tigre branco

Agora, se eles são dopados para que fiquem tranquilos durante as visitas (há quem diga isso), eu já não sei. Se colocam algo naquela mamadeira que eles oferecem o tempo todo para os bichos, isso eu também não sei informar. O que vi e registrei é que os “gatinhos” estavam, em sua maioria, acordados, eram alimentados com frango ou carne, o tempo todo, e aceitavam a presença dos estranhos para uma foto.

Leões brincam com cachorros
Inclusive me espantou a presença de cachorros nas jaulas junto com os “bichanos selvagens” numa convivência muito pacifica. Um pitbull brincava animadamente com um filhote de tigre logo na entrada e numa jaula, com uns quatro tigres adultos, um vira-latas parecia ser o dono do pedaço! Foi o que me animou a entrar também!
A administração do zoológico diz que os animais passam por um longo processo de amansamento e, realmente, nem todas as jaulas estavam disponíveis para visitação e é preciso seguir algumas recomendações. As crianças são proibidas de entrar porque os felinos podem pensar que são aperitivos. Até o meu sobrinho que tem 14 anos que é alto, mas é magrinho, não pode entrar na jaula dos animais adultos, só na dos filhotes.

Você também não pode fazer movimentos bruscos, nem por a mão na região do pescoço e cabeça e nem se posicionar na frente do animal para ser fotografado.

Os tratadores estão o tempo todo orientando o que pode ou não fazer e disciplinando a entrada do pessoa — três por vez. Mesmo assim isso não impediu que um filhote de tigre mais hiperativo atacasse a minha bolsa que ficou pendurada na entrada de uma das jaulas. Com um pulo e uma patada, a bolsa foi jogada no chão e se a tratadora não espanta o bichano, acho que ela não teria sobrevivido. Uma lhama mal educada perseguiu e cuspiu em mim. Senti algo pessoal.

O grande lance do Zoo de Lujan é isso: poder pegar e sentir os bichos e, se tiver azar, ser pegos por eles (espero sinceramente que não). Então, se você for daquelas pessoas que na minha terra a gente chama de “encagaçada”, não perca a viagem.
Fábio, meu filho, enfrentou os leões

O zoológico não é visualmente bonito e se o dia estiver chuvoso, desista, porque tudo vira um lamaçal. Lá dentro não há muitas opções de almoço. Só há um restaurante, com uma churrasqueira. O melhor é ir cedo, levar um lanche, passar toda a manhã no zoo e a tarde ir ao centro de Lujan, almoçar e aproveitar para conhecer a Basílica de Nossa Senhora de Lujan, padroeira da Argentina. A imagem da Santa, inclusive, é brasileira – foi feita em São Paulo.

Bioparque Temaikén

Mas voltando aos bichos, um outro programa imperdível é ir ao Temaikén, principalmente para a criançada e os adultos que não cresceram como eu. Reserve mais um dia de passeio porque o lugar é longe de Buenos Aires, fica em Escobar, e é grande. Você também pega o coletivo na Plaza Itália para ir até lá. Pode pegar o expresso e um semi-expresso. Peguei os dois e a única diferença que achei foi o preço porque o tempo foi de uma hora e meia, um pouco mais, um pouco menos.

Teimaikén é um bioparque e o diferencial dele é a beleza do espaço, muito bem cuidado, com boas praças de alimentação e conforto. O parque tem ambientações variadas para recriar o habitat natural dos bichos e é um convite à contemplação das espécies. Os viveiros são enormes e você entra para observar tucanos, araras e uma infinidade enorme de aves de pertinho, como se elas estivessem livres. O mesmo ocorre no espaço dos cangurus australianos, entre outros.

Os animais têm bastante espaço para reproduzirem os mesmos movimentos que fazem quando estão soltos na natureza. O parque também oferece atividades variadas em diferentes dias e horário, como por exemplo, a oportunidade de ver os tratadores alimentando os animais ou ainda fazendo demonstrações, jogos e palestras.
Apresentação das aves de rapina com participação do público

Os aquários são realmente uma atração a parte. Dá pra ver, por exemplo, o hipopótamo nadando e o quanto ele é enooooorme porque ele chega pertinho do vidro. Todos os sábados, das 14h45 a até às 15h45 mergulhadores entram em ação no aquário, que dá uma visão ampla do fundo do mar, de 180 graus. Eles alimentam tubarões e analisam o comportamento das espécies. Também é possível entrar no aquário e participar dessa atividade, pagando um valor adicional.
Shark Attack 

Se a visita é curta, fica até difícil de dizer o que abrir mão porque Lujan e Teimakén oferecem propostas tão diferentes que eu fico com os dois, apesar de achar o Temaikén muito mais bonito, aprazível e, digamos, “politicamente correto”. Mas em quantos lugares no mundo você poderia estar tão perto de um leão, sem o risco de cair na malha fina? Fica ai a dúvida da escolha para vocês.

É possível mergulhar no aquário!


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um museu para uma história trágica de amor

Um museu relativamente novo em Buenos Aires, mas que você já pode colocar na sua lista de visitas obrigatórias, é o Museo del Bicentenario. Inaugurado em 2011 para marcar os festejos do bicentenário da independência da Argentina, o museu, na realidade, foi uma boa desculpa para guardar um precioso tesouro – uma obra de arte que esconde uma história desesperada de amor e de disputas judiciais.


O espaço foi construído nos fundos da Casa Rosada, no subsolo, aproveitando as ruínas do Forte de Buenos Aires, que existia no século XVIII, e da Aduana Taylor, construída em 1855. A bem bolada arquitetura, que aproveitou a iluminação natural a partir do teto envidraçado, por si só já seria uma bonita atração. Para quem passa por fora, se não for atento, pode nem perceber a grandiosidade do projeto, feito de forma a não interferir em nada na visão externa do palácio presidencial. A primeira vista parece até que se trata de mais uma estação do metrô, mas logo que se entra somos impactados pela beleza que é o contraste do moderno com o antigo – a restauração dos restos do antigo edifício da aduana e do forte com o branco do piso.

Um vídeo feito com a ajuda da computação gráfica dá ao visitante a exata noção das transformações que o espaço sofreu desde antes da construção da Casa Rosada até as obras do museu. Dá uma olhada.

O museu guarda toda história da Argentina desde sua independência até os dias atuais, exposta de forma cronológica e dividida por fases. Lá é possível reviver, por meio de vídeos, áudios e objetos, a emoção dos argentinos ao receberem o anúncio da morte de Evita Peron, os horrores sofridos pelas Mães da Praça de Maio no período da Ditadura Militar, a Guerra das Malvinas e, obviamente, a era Kirchnerista  que foi responsável pela construção do espaço, o que acaba por prejudicar um pouco a credibilidade das informações contidas nessa parte da história.

O melhor está no final

No entanto, a cereja do bolo pode-se dizer que nada tem haver com a história do bicentenário da argentina e não à toa fica por último, guardada com muito cuidado. Se trata do mural do artista mexicano David Alfaro Siqueiros, Ejercicio Plástico. A obra, feita no interior de uma adega que foi inteirinha transladada para o interior museu, carrega, além da importância artística, uma história pra lá de intrigante, que ainda não sei como não virou um tango.

O trabalho começou em 1933 na quinta Los Granados, propriedade do empresário milionário Natalio Botana, dono de um importante jornal da época, e as controvérsias sobre as circunstâncias que levaram Siqueiros a fazer esse “Ejercicio” já começam daí. Conhecido por ser, junto com Diego Rivera e José Clemente Orozco, um dos grandes muralistas mexicanos, o pintor é proclamado mundialmente por sua dedicação à arte pública e aos temas revolucionários e sociais, e por isso ninguém sabe ao certo por que ele aceitou realizar uma obra de tamanha envergadura em uma propriedade privada e no sótão.

Mais que isso, ele também deixou de lado sua recorrente temática para retratar a nudez de sua mulher, a poeta uruguaia Blanca Luz Brum. Talvez por estar escondida dos olhos do público, ele resolveu testar nessa obra várias técnicas ainda desconhecidas na época e chamou para ajuda-lo os artistas argentinos Lino Enea Spilimbergo, Antonio Berni e Juan Carlos Castagnino, além do cenógrafo uruguaio Enrique Lázaro. Os três primeiros seriam responsáveis, posteriormente, por pintar o maravilhoso teto da Galeria Pacífico, inaugurando o movimento muralista na argentina.

Ato de amor e ódio

Enquanto Siqueira testava o aerógrafo no lugar do pincel e projetava fotografias substituindo os tradicionais desenhos na tentativa de dar movimento à pintura e a sensação de que sua mulher estaria numa caixa de cristal dentro do mar, como uma bolha, Blanca, dizem as más línguas, iniciava ali um tórrido romance com o dono da chácara.

A obra ficou pronta em três meses e Siqueiros, por questões políticas, voltou sozinho para México, deixando a mulher em Buenos Aires. Foi o fim do seu relacionamento, que já não andava bem, e há quem diga que Ejercicio tenha sido a forma do artista expressar seu sofrimento amoroso.

Fala-se inclusive, que a representação da mulher desnuda retorcida reflete uma briga que o pintor mexicano teve com Blanca em um restaurante. Contam que ele lhe deu uma bofetada tão forte que ela caiu com as costas sobre a mesa e é essa a imagem que está na parece ao fundo do sótão. 

Se foi isso, o fez de forma belíssima, derramando seu drama pessoal pelos 200 metros quadrados da sala semicilíndrica, tomando suas paredes, o teto aboleado e o chão, imprimindo uma dimensão nunca antes vista em uma obra interna. Uma chaga que Siqueiros tratou de esquecer e trata-la como um treinamento e, talvez, por isso nome “Ejerccio”, já que a considerava uma transgressão bibliográfica de sua arte socialista.

Depois da morte de Botana, em 1941, a obra passou por uma longa peregrinação. Por seu conteúdo considerado pornográfico, sofreu violações por parte de uma das mulheres dos proprietários que adquiriu a chácara. Essa insana chegou a tentar retirar a pintura com ácido, mas a técnica utilizada por Siqueiros foi tão resistente que acabou sendo encoberta com cal para impedir sua visualização.

Até que um outro empresário, em 1989, decidiu explorar o “achado” e resolveu retirar a pintura da adega, separá-la em painéis, como um quebra-cabeça, e a pôs em containers para exibi-la em uma turnê mundial. No entanto, atolado em dívidas, não conseguiu dá prosseguimento ao projeto e iniciou-se aí uma grande disputa judicial que levou 16 anos.

Foi o presidente Néstor Kirchner que, em 2003, declarou o mural “bem de interesse artístico” para somente em 2009 o senado expropriar o bem e, assim, o governo iniciar os trabalhos de restauro. E talvez por se constituir num grande feito da era Kirchnerista que a obra foi parar lá no museu inaugurado por sua mulher, a presidenta Cristina. Agora, exposta bem aos olhos das massas, é um testemunho de uma outra revolução, a dos sentimentos.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Muitos motivos para ir (e voltar) a Bariloche



Paisagens de tirar o fôlego
Em julho começa a alta temporada de inverno em Bariloche. Ou seria “Brasiloche”? Nessa época do ano os brasileiros lotam a cidade argentina sem a menor cerimônia, o que fazem muito bem, porque o lugar é perto, lindo de doer e a argentina está em conta para a gente.Vale a viagem! Os argentinos estão tão acostumados com os brasileiros por lá, que já entendem tudo o que falamos e se esforçam para falar um portunhol manco.

Esqui-bunda para garotada 
Atenção para a qualidade das roupas para neve
Bariloche está totalmente recuperada depois da erupção do vulcão Puyehue em junho de 2011 e o número de brasileiros na cidade já é 20% maior que no ano passado. Para quem nunca viu neve, o espetáculo é garantido. E se estiver bem preparado para o frio e de posse de informações importantes, as chances de ter uma experiência positivamente inesquecível são de 100%. Agora, se for um despreparado, é capaz de passar por alguns dessabores e tornar o encontro com a neve algo traumático.

Como eu estava bem, só tenho motivos para querer voltar. Ainda me lembro de quando era criança e fui a Nova York pela primeira vez, no inverno. Peguei um frio tão grande e sem qualquer preparo, que perdi o interesse pela viagem e me enfiava em todas as lojas por conta da calefação. Era um vento que me cortava a alma. Passei anos sem querer voltar e só depois de adulta pude desfazer a péssima lembrança.

O frio de Bariloche é desses de cortar a alma. Mesmo na cidade. Portanto, vá preparado não apenas para esquiar na neve, mas para andar pelas ruas na cidade. Fui agora no final de junho e peguei neve, chuva e temperaturas abaixo de zero. E a alta temporada nem tinha chegado.

Aluguel de roupas de esqui e compras

Você não precisa comprar roupas de esqui se a sua intenção for meramente recreativa. Em Bariloche é possível alugar o equipamento completo em várias lojas no centro. A todo o momento tem alguém te oferecendo. Há muita diferença de preço entre uma loja e outra e de qualidade também, lógico, então pesquise. Não pense que poderá economizar e ir com suas roupas normais porque sua avareza será castigada: terá as roupas ensopadas e morrerá de frio, mesmo que sua intensão seja só olhar a neve.

Vista do pé do Cerro Catedral 
As roupas são basicamente iguais – casacos e calças ou macacão, luvas e botas – mas as botas, essas fazem a diferença. Procure as que têm solado de borracha ou correrá o risco de escorregar e se machucar feio. A maioria oferece botas pretas com solado plástico, com clavas, mas não são boas. Meu filho sentiu a diferença na pele, ou melhor, na bunda – caiu e está com suspeita de ter fraturado o cóccix. Se puder alugar óculos também, melhor ainda.

O aluguel é cobrado por diária, em espécie, e sai mais barato alugar tudo em um mesmo lugar do que optar por pegar peças separadas. Quanto maior for o tempo de aluguel, menos se paga. No comércio muitas lojas aceitam real como pagamento ou dólar (mas tem que ver se o câmbio vale a pena, se for o mesmo que é aplicado no oficial, pague em pesos porque a defasagem entre o oficial e o paralelo é grande!). Cartão internacional só em caso de extrema necessidade.

Agora, se preferir ter sua própria indumentária, passe antes por Buenos Aires e vá a Calle Forest, 400. Lá tem uma pequena concentração de lojas de fábricas de casacos (também impermeáveis), camisas térmicas, corta-vento, coletes e etc. As térmicas são boas de comprar porque essas não há para alugar. Leve um casaco convencional bom para a cidade.

Diplomacia brasileira 

Hotel Fazenda Carioca: um pedacinho do Brasil
Entre os muitos hotéis, hospedarias e cabanas em Bariloche encontrei um verdadeiro cantinho brasileiro: o hotel Fazenda Carioca, uma dica preciosa da minha amiga Daniela Brauer. O nome logo denuncia que tem dedo brazuca e a bandeira brasileira, no hall de entrada, entrega de vez, se é que ainda restava alguma dúvida.

A casa é linda e enorme já foi a residência do consul brasileiro em Bariloche. Seu filho, criado no local e apaixonado pelo lugar, comprou a propriedade e fundou o hotel. Sorte para os hóspedes que podem desfrutar de acomodações muito confortáveis, espaçosas e de uma deslumbrante vista panorâmica do lago Nahuel Huapi e da cordilheira. É impagável ver o amanhecer enquanto se desfruta o café da manhã, aliás, muito bem servido. Além do dono, o pessoal da recepção ainda arrasta um português.

Área da recepção e restaurante com vista panorâmica
O hotel não fica perto da cidade, mas o contato direto com a natureza e a tranquilidade do lugar, que conta com dois hectares de jardins e bosque, compensa qualquer coisa. Mas se o objetivo é economizar com deslocamentos, aconselho a ficar em algum hotel do centro.  

Passeios: dicas e cuidados 

Subida ao Campanario
É claro que quem vai para Bariloche quer ver neve, esquiar, fazer esqui-bunda, e isso fica fora da cidade. Dois lugares que não podem deixar de ser vistos: Cerro Catedral e Piedras Blancas. Para quem nunca foi a essa região, vale fazer o que eles chamam de Circuito Chico, que é vendido pelas agências locais. Ele envolve alguns dos pontos mais interessantes e o roteiro inclui uma volta pelas principais “praias” do lago Lago Nahuel Huapi, o Hotel Llao Llao, uma parada na fábrica de Rosa Mosqueta, o Cerro Campanario e o Cerro Catedral.
Surra de neve no Campanario, farra, mas vista prejudicada

Agora, atenção: o preço que é cobrado pelo passeio só inclui o transporte e o guia local. Não inclui as subidas aos Cerros Campanario e Catedral, que você precisa pagar a parte. Não é barato e é pago em espécie, na hora, e isso não nos foi avisado. Portanto, leve dinheiro ou perderá o melhor da festa.

O roteiro leva o dia inteiro e pode ser entediante para a molecada, que quer é brincar na neve. Então, se já conhece esse roteiro e quer economizar e eliminar os entretantos, vá direto ao Centro Cívico da cidade, onde está a Secretaria de Turismo e pegue lá folhetos, mapas e o guia de todas as linhas de ônibus locais e horários. Assim, você poderá visitar todas as atrações, pagando muito menos e escolher o que pretende fazer. Ta aí, um dos meus motivos para querer voltar.

Subidas não estão inclusas nos passeios
Para saber como ir ao Cerro Catedral de ônibus, que é a principal atração, acesse o site da empresa de micro-ônibus 3 de Mayo e veja os horários. Tem outras empresas na lista da prefeitura. Reserve um dia para esse passeio. Lição aprendida para minha próxima ida.

O Cerro Catedral é o centro de inverno mais importante da América do Sul e oferece uma ampla infraestrutura de serviços para a prática de todas as modalidades de esqui e outros esportes invernais. É a Disneylândia da garotada ávida por se esbaldar na neve! E para os menos dispostos, há a possibilidade de comer um cordeiro patagônico enquanto aprecia a vista linda do pé da serra.
Cerro Catedral pronto para a alta temporada

No Cerro Otto está o complexo Piedras Blancas, onde também é possível fazer esqui-bunda e esqui convencional, inclusive tomar aulas. Você pode escolher entre cinco pistas e para quem só vai acompanhar a farra é possível optar por fazer o passeio no teleférico e ficar na parte mais baixa, onde há estrutura com um café ou pegar o pacote completo com direito a descer até seis vezes na pista. 
Na estação do teleférico Cerro Otto, que se pega no Km 5 da Avenida Pioneiros, se acessa a confeitaria giratória, única da argentina. No Campanario está uma das sete vistas panorâmicas mais bonitas do mundo. E tive sorte. Começou a nevar minutos depois que chegamos no alto, mas se por um lado meu primeiro contato com uma chuva de neve foi emocionante, por outro, o mal tempo impediu uma vista mais ampla da paisagem. Mas valeu muito! Lá também tem uma cafeteria com calefação para esquentar as mãos e um reconfortante chocolate quente.

Para quem vai passar mais dias, tem muitos passeios para serem feitos. Mais e menos radicais. Desde um parque com esculturas gigantescas e realistas de dinossauros até caminhadas com aquelas raquetes para neve. Na secretaria você pode se informar de todos eles.

Para comer e beber

Mamuschka: clima de Natal em pleno junho
Os chocolates são a marca registrada de Bariloche por conta da colônia suíça. Mas não se iluda, o cacau é do Brasil ou da Colômbia porque a Argentina não produz a fruta. Mas a receita vem mesmo dos alpes. E há mais de 10 fábricas de chocolates para você escolher. A Mamuschka e a Rapa-Nuí têm as lojas maiores e mais bonitas. A Chocolate do Turista é enorme, mas não nos foi recomendada por usar mais gordura na fabricação.

Vem da colônia suíça também o tradicional curanto, que quer dizer “pedra quente”. A iguaria é feita pelos colonos somente às quartas e aos domingos. Para o preparo cava-se um buraco, onde é colocado fogo para aquecer as pedras e os alimentos são cozidos sobre elas. Fecha-se o buraco com folhas, serragem e terra. E enquanto cozinha, a festa vai acontecendo. Queria ter experimentado, mas voltei antes e vou ter que me programar para a próxima. Mais um motivo para voltar!
Fondue de queijo para dois no La Marmite

Restaurantes há muitos e de variadas especialidades. Além do cordeiro patagônico servido em quase todo lugar, não deixe de experimentar um prato de cerdo, javali, truta ou salmão, que é o que há de melhor por lá.

Recomendo o restaurante Família Weiss, que fica em frente à Catedral, para pratos de caça e um bom vinho; o Boliche de Alberto (tanto o de carnes quanto o de massas, são muito bons e com bons preços) e o La Marmite, de fondue – com ótima ambientação e muito aconchegante. Dica da minha amiga Dani, que não costuma errar, para um cordeiro patagônico, é o El Patacon. Não pude averiguar, acabei comendo o meu numa parrilla em Cerro Catedral. Não foi ruim, mas achei pouco e nem foi barato, mas definitivamente terei que voltar para experimentar esse.

Serviço

Secretaria de Turismo Bariloche
0294 4429850
www.barilocheturismo.gob.br

sábado, 8 de junho de 2013

Rojo tango: um espetáculo a parte



Interior do Señor Tango: boa ambientação
Show de tango em Buenos Aires é o que não falta. Todos caros, já vou avisando. É programa de turista, por supuesto que si, mas é obrigatório. Não tem como sair da Argentina sem ver um espetáculo desses. E já que é certo de que vai ter que gastar uma boa monta, vá a um que realmente valha a pena.

No primeiro show de tango que eu fui, o Señor Tango, até que achei bacana. A casa tem uma cenografia muito interessante, o espetáculo é grandioso, com muitos bailarinos e até cavalos. Foi divertido, claro, mas me senti um pouco como se estivesse no Plataforma, com direito a uma espécie Sargentelli hermano que apresentava os shows, o que para mim soou um tanto brega. Mas tudo bem, é coisa para turista e pensei comigo: “ok, já tiquei, já vi um, já vi todos”. Engano meu.

Hall de entrada do Faena
Outra noite fomos acompanhar uma visita a um desses shows e acabamos por conhecer o Rojo Tango. Adorei. De verdade. Iria novamente, sem nenhum problema. Primeiro porque o Rojo Tango fica dentro do Faena Hotel, em Puerto Madero, e por si só o lugar já vale muito a visita. O hotel, todo de ladrilhos portenhos, é extravagantemente luxuoso, os banheiros de mármore branco do chão ao teto, espelhos venezianos, restaurantes requintados e uma piscina lindíssima, que não tem borda (é curioso ver). Segundo, porque eu, particularmente, prefiro algo mais artístico e menos circense.

Se você pensa como eu, então também vai gostar mais do Rojo Tango. Como o nome já diz, o ambiente é decorado todo em vermelho, como um cabaret antigo. Tudo muito bem cuidado e novo. O jantar (que está incluso no pacote) foi uma delícia - mais um ponto positivo porque a comida do Señor Tango não vale o preço. Servem champanhe Baron B, que é ótimo, além de bons de vinhos. No cardápio, entrada, prato principal, com excelentes opções de peixe, carne e massa, além da sobremesa. 
Show intimista onde a dança é a grande atração

O show é mais intimista e de muito bom gosto. Figurinos bem elaborados, iluminação bem cuidada, e com ótimos bailarinos e cantores, embalados por uma orquestra ao vivo de jovens músicos talentosos. A apresentação transcorre sem interferência de mediadores, como num bom filme que revive as décadas de ouro de Buenos Aires. E tudo é muito sensual e ao mesmo tempo requintado, com direito até a uma sutil dança com véus que termina com um pequeno streap tease.

Vale cada centavo cobrado. É mais caro que os demais, sim. Mas dificilmente você vai encontrar outro tão bom, tenho certeza. E como não tem nada barato mesmo, sorria e chute logo o balde.

Quem quiser economizar um pouco, tem a opção de ver somente o show, com champanhe e vinho inclusos. Faria isso se tivesse que ir ao Señor Tango novamente, mas no Rojo Tango o melhor é o pacote completo, certamente. 

Fui para casa feliz da vida, me sentindo mais privilegiada por ter visto algo realmente bom, do que como expectadora de um programa de turista obrigatório.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Para lá e para cá sem carro em BAires

Carteira de motorista só para emergências e cartão Sube,
meu companheiro de todos os dias.
 Quando vim para Buenos Aires, decidi, em acordo com meu marido, que venderíamos o nosso carro e não teríamos nenhum outro aqui. Tomamos essa decisão depois de conversarmos com algumas pessoas que estavam morando na capital argentina. Em primeiro lugar, a carteira de motorista brasileira não é válida aqui e o seguro normal não cobre sinistros ocorridos fora do território nacional e nem seguradoras locais poderiam nos cobrir. Para sua carteira valer, você precisa ter a tal Carta Verde ( é o seguro obrigatório para automóveis quando em viagem para países do Mercosul).

Até que não é difícil tirar ou validar sua carteira aqui. É burocrático, mas não é impossível (veja aqui como tirar sua carteira de motorista). E até já tirei a minha para alguma necessidade. O mais interessante, que se torna uma grande facilidade, é que, ao contrário do Brasil, na Argentina não é obrigatório entrar numa autoescola, mesmo para aqueles que terão sua habilitação pela primeira vez.

Sei de brasileiros que estão aqui dirigindo sem problemas com a tal Carta Verde, mas tem uma validade e tem que fazer a relação custo/benefício. Se muitas vezes sofremos para acionar nossas seguradoras dentro dos limites nacionais, o que dirá à distância. E o trânsito aqui também não é fácil. Não sei... Achei que seria um risco desnecessário dirigir. Então, preferi não arriscar e acreditar que poderia sobreviver sem esse conforto por dois anos. Não me arrependi, até agora. E olha que sempre tive carro e, por muitos anos, até motorista.

Buenos Aires não é Londres em questão de transporte público, mas está longe de ser o Brasil – que é caótico na questão de mobilidade urbana. Infelizmente, o ônibus aqui também é o transporte preferencial, mas não é o único. A cidade é bem servida pelo metrô, que é centenário, mas é efetivo. E, apesar dos baixos investimentos do governo nos trens, eles ainda atendem bem a cidade.

Usando o transporte público

Para os brasileiros que estão visitando a BAires, o táxi resolve todos os seus problemas. É fácil pegá-los, tem aos borbotões, e barato, se comparado com o que é cobrado no Brasil. Recebi muitos alertas sobre taxistas golpistas, mas não tive a infelicidade de me deparar com nenhum deles. Ao contrário de quando estive no Chile, onde esse problema é quase uma epidemia. No entanto, se está no aeroporto com malas, o mais indicado é que opte pelos Remis, que são táxis numerados, considerados mais seguros.

Para quem mora em Buenos Aires, tendo em vista que o transporte público é subsidiado pelo governo e, portanto, é muito barato, táxi mesmo só para ocasiões especiais. Antes de partir para ele, tente ônibus, metrô ou trem. Para saber como ir até um determinado lugar, consulte um site chamado Viaja Fácil, que mostra todas as linhas de ônibus, metrô e trens que você pode pegar, informando, inclusive, tempo de duração do deslocamento de cada meio de transporte. Tem outro que eu sempre consulto e está sempre atualizado que é da prefeitura, é o Mapa de Buenos Aires.

Antes de mais nada, adquira em qualquer agência dos Correios Argentinos (pode usar o passaporte) um cartão Sube ((Sistema Único de Boleto Electrónico). Você paga uns ARG$ 15,00 pela “tarjeta” e o carrega com a quantidade de créditos que deseja. Com ele você pode pagar ônibus, metrô e trem. Se não tiver o Sub, pegar ônibus fica problemático porque os coletivos não têm cobrador, o motorista é quem cobra a sua passagem diretamente no cartão, descontando o valor , que varia conforme o seu destino, e se você não o tiver, terá que pagar, em moedas, diretamente na maquininha. E o preço da passagem dobra. O que não quer dizer nenhum absurdo porque a passagem mais cara, com cartão Sub, vale ARG$ 2,00 (não chega a um Real!!!) e em moedas sai a ARG$ 3,50. É mais difícil ter as moedas.

A frota é bem conservada, todos os coletivos são adaptados para receber cadeirantes, mas os motoristas fizeram cursinho no Brasil e não são nada simpáticos e também queimam paradas. Outro probleminha é que não há uma boa logística de horários. Às vezes demora a passar o ônibus que você quer e quando menos espera chegam uns três, de uma vez só, para você escolher, em comboio. Vai entender...

Os ônibus aqui também lotam, mas não vai ninguém pendurado na porta e o argentino é um ótimo remédio para os caras-de-paus que ocupam os assentos reservados para idosos, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida. Você até pode sentar, mas se chegar um ocupante, não tenha dúvida que, se não ele próprio, alguém solidário vai lhe “cutucar” e pedir “carinhosamente” que se levante, se você não o fizer de livre e espontânea vontade. E nem adianta fingir que está dormindo. Os outros passageiros também não estão livres de terem seus assentos confiscados por alguém que vai pedir, em alto e bom som, se não tem alguém que ceda o lugar para alguma mãe com seu filho ou velhinho. E como tem velhinho andando de ônibus aqui! 

Música e cultura

O metrô tem a tarifa mais alta e, tirando a linha A, que foi modernizada recentemente, a maioria dos trens é bem velha, está pichada e não tem ar-condicionado. As estações são centenárias também, mas, mesmo sem grandes confortos, funciona bem e, o que é melhor, cobre boa parte da cidade, sendo uma opção rápida. Com a crise econômica é comum encontrar ambulantes nos vagões vendendo “de um tudo”. Eles entram e jogam no seu colo o produto e depois saem recolhendo o dinheiro ou o artigo de volta. Já fiz boas compras no metrô. 

Cena cotidiana: pessoas lendo no subte a caminho do trabalho
Também não será difícil que a sua viagem seja musical (veja esse vídeo, vale a pena!). É comum o vagão ser invadido por músicos dos mais diferentes estilos musicais e de grandes talentos. Mas, incrivelmente, ainda não vi em nenhum lugar da Argentina as malditas bandas pífanos peruanas, o que não deixa de ser curioso e um alívio (oh, coisinha chata...). Também é uma grande oportunidade de enriquecimento cultural porque todos aproveitam as viagens de coletivo e de metrô para ler (já estou no meu quarto livro, de março até aqui). 

Não posso falar muito dos trens porque quase não os pego. Só utilizei uma vez e para ir ao Tigre. E fui bem servida. Mas é uma linha turística e por isso não serve como referência. Dentro da capital, não os usei e os argentinos reclamam muito da falta de manutenção, o que é uma pena porque para mim ônibus nunca foi nem será transporte de massa. Mas são quatro terminais ferroviários - Retiro, Constitución, Once e Federico Lacroze - que conectam a Cidade de Buenos Aires com os subúrbios e outras cidades da Argentina.

No mais, tenho andado muito e de transporte próprio mesmo só tenho uma bicicleta. Cada um aqui em casa ganhou uma. Uso para ir ao supermercado, academia, passear e até mesmo para a aula de espanhol que é mais longe. E quer saber? Estou adorando. Entrei na onda verde, sustentável e dos sem preguiça. Morar no exterior não é sair da sua zona de conforto? Então, tá.

sábado, 11 de maio de 2013

Para curtir a dois, a três ou sei lá...


Essa semana foi o aniversário do Ricardo e quis surpreendê-lo de alguma forma. Mandei um torpedo suspeito, com apenas o endereço do local que ele teria de me encontrar no charmoso bairro de Palermo Soho. O local, de entrada muito discreta e requintada, era um restaurante afrodisíaco chamado Te Mataré Ramirez. Uma amiga minha que estava em lua-de-mel em Buenos Aires já havia me indicado certa vez e, mais recentemente, uma outra amiga ‘caliente’ me mandou uma mensagem com essa indicação. Assim, achei que o momento era mais que oportuno e fiz a reserva.

Entrada de salmão com caviar
A decoração do restaurante é toda vermelha, com muito veludo, estilo cabaré francês, com pouquíssima luz, fica quase impossível tirar fotos. Tudo lá é sugestivo, picante, até pornográfico, eu diria, mas nada de mau gosto – das pinturas na parede aos artefatos decorativos. Os nomes e as descrições dos pratos no cardápio são engraçadíssimas. Para as preliminares começamos com Turbado Por El Aroma De Su Deseo, um inocente salmão marinado e caviar, com salada temperada com um molho de mostarda de Dijón. E a arrumação do prato também é sugestiva e foi, entre o que comi, o que mais gostei. 
Para ter na adega

Para os finalmentes, o prato que escolhi chamava-se Su sexo, Orgulloso, se Inflama y Enardece, para, literalmente, me entregar ao prazer carnal de um cordeiro com purê de batata doce. Graças ao bom Deus que os pratos têm números e você não precisa entrar em intimidades com o garçom. Para beber, nos indicaram um malbec chamado Animal (ui!), da bodega Catena, que estava muito bom. Para quem não quer jantar, a casa ainda oferece open bar.

Mas o melhor mesmo são os shows eróticos. De terças a domingo, a casa apresenta uma programação cultural com apresentações cênicas, burlescas, tarô erótico, exposições de arte entre outras atrações. Para a mulherada, a casa ainda oferece oficinas de strip-tease. 


No dia que fomos, estava em cartaz a peça Rubor – Sexo al Oído. Um casal de artistas declamaram textos eróticos e pornográficos de escritores como Pietro Aretino, Sbarra, Baptiste, Quevedo, Sietecase entre outros anônimos, interagiram (com todo respeito, mas não muito) com o público e simularam, sem nem encostar um no outro, apenas com gestos, gemidos e uma verborragia obscena, o ato sexual, arrancando boas risadas de todos. As caras e bocas do ator nos fizeram lembrar um amigo que, incrivelmente, consegue encostar a ponta da língua no nariz (e aposto que você acabou de tentar!), o que nos garantiu risadas extras. Para quem não tem fluência no espanhol, é melhor procurar na agenda uma atração mais visual e menos auditiva... Calma! Ia sugerir uma apresentação de dança. 

O restaurante não é barato. Tem uma consumação mínima de quase P$ 200,00 por pessoa. Mas vale principalmente pela proposta diferenciada. Não pedimos sobremesa, mas vi que tinha uma boa variedade. Arrependi-me porque não me lembrei de visitar o banheiro. Acho que perdi de ver até onde vai a criatividade humana e de me divertir um pouco mais. Se por acaso vier a Buenos Aires e resolver seguir essa sugestão, não esqueça de me dizer se foi bom para você.



TE MATARÉ RAMIREZ - RESTAURANTE AFRODISÍACO

Gorriti 5054, Palermo SOHO
1023 - Ciudad Autónoma de Buenos Aires
Segundas a domingo a partir das 20:30
(5411) 4831-9156
amantes@tematareramirez.com